Olha, o espetáculo é digno de roteiro. O presidente dos Estados Unidos descarta enviar delegação ao Paquistão, anuncia urbi et orbi que a guerra vai terminar, e ainda atira a frase memorável de que, se o Irã quiser conversar, basta ligar ou pegar um avião até Washington. Diplomacia por telefone, como quem confirma reserva em churrascaria. Há quem celebre isso como pragmatismo, há quem trate como humilhação dos protocolos. Eu prefiro olhar para o que ninguém quer ver, que é o lastro real desse teatro: cada bravata presidencial é sustentada por uma estrutura militar e monetária que custa caro, e cuja fatura jamais chega no endereço de quem fala alto no microfone.

Quer dizer, descartar delegação não é gesto de paz, é gesto de quem entende que negociação real exigiria concessão real, e concessão real exigiria explicar ao contribuinte por que o complexo industrial militar precisa de mais um trilhão por ano para depois resolver tudo num telefonema. A guerra que supostamente vai acabar nunca foi guerra no sentido clássico. Foi cabo de guerra entre fações cujas folhas de pagamento dependem do conflito permanecer no ar pelo tempo necessário para que os contratos sejam assinados, os mísseis sejam vendidos, os títulos do Tesouro sejam emitidos e o dólar siga circulando como única moeda capaz de comprar petróleo no Golfo. Encerrar uma guerra por telefone é o luxo de quem nunca paga pelo orçamento da chamada.

Me diz uma coisa, alguém parou para perguntar quem ganha com a paz súbita anunciada por tweet? Pois é exatamente aí que mora o filé. Petroleiras americanas precisam de previsibilidade no preço do barril, fabricantes de armamento precisam de novos contratos quando os antigos esfriam, bancos centrais aliados precisam de sinal verde para continuar comprando títulos americanos, e o eleitor doméstico precisa de manchete vitoriosa para esquecer que a inflação acumulada destruiu o poder de compra do salário dele nos últimos anos. Negociar pelo telefone é eficientíssimo quando o objetivo é fechar negócio rápido sem prestação de contas pública. Câmera ligada atrapalha, ata oficial atrapalha, congresso atrapalha. Telefone resolve.

O detalhe que escapa às manchetes é que nenhuma guerra moderna é financiada com impostos correntes. É financiada com emissão monetária, com dívida nova, com confisco silencioso embutido em cada nota de cem dólares que vale menos amanhã do que valia ontem. O americano comum aplaude o fim da guerra sem perceber que pagou por ela duas vezes, primeiro no posto de gasolina, depois no aluguel, e pagará uma terceira vez quando a próxima crise bancária pedir socorro do Federal Reserve. O brasileiro, que não tem nada a ver com Teerã ou Islamabade, paga via dólar comercial, via importações, via custo do crédito que reflete os juros americanos. Toda guerra americana é, no fim, um imposto global cobrado sem cédula eleitoral.

E aqui entra a parte que os comentaristas de plantão jamais admitirão, porque depende da televisão estatal de cada país e da assessoria do banco que emprega o economista. A política externa americana das últimas décadas não é caótica, é coerentíssima dentro da própria lógica: manter o dólar como reserva mundial exige conflitos calibrados, alianças móveis, inimigos rotativos e um presidente capaz de soar imprevisível para que os mercados continuem comprando segurança ao preço que os Estados Unidos definirem. Trump grita mais alto, mas a partitura é a mesma há gerações. Mudou o maestro, não a orquestra. Quem acha que telefonema resolve geopolítica nunca leu uma fatura de cartão de crédito atrasada.

No fim das contas, o anúncio da paz por telefone serve como lembrete brutal do óbvio que ninguém mais quer enxergar. Guerras não acabam quando os generais se cansam, acabam quando o financiamento se torna politicamente inconveniente. E começam de novo no instante seguinte, sob outro nome, outro pretexto, outra manchete. O cidadão livre, esse personagem cada vez mais raro, faria bem em ignorar o ruído presidencial e olhar para o gráfico do ouro, para o preço do petróleo, para a curva de juros americana. A verdade econômica está sempre mais próxima do extrato bancário do que do discurso oficial. Ligação encerrada, conta em aberto.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.