Trump apareceu diante das câmeras para informar ao planeta que o hantavírus "não se espalha facilmente" e, no mesmo fôlego, elogiou a resposta do próprio governo a uma ameaça que, segundo ele mesmo, mal se espalha. Quer dizer, mobilizou-se a máquina inteira, acionaram-se agências, soltaram-se comunicados, e tudo isso para combater algo que, pela boca do comandante em chefe, dificilmente sairia do lugar. Olha, ou o problema é grave e o discurso é negligente, ou o problema é menor e a estrutura montada em torno dele é cara demais para o tamanho do bicho. As duas coisas não cabem na mesma frase, mas o microfone não cobra coerência, cobra audiência.
O leitor desavisado pode achar que isto é apenas mais uma coletiva morna de fim de semana. Não é. Cada vez que um governo diz "está tudo sob controle" antes mesmo de o público saber que algo estava fora de controle, é hora de prestar atenção ao que não está sendo dito. Quem ganha contrato emergencial? Que laboratório recebe verba acelerada? Qual agência amplia seu orçamento sob a justificativa de "preparação"? A pandemia anterior ensinou que o vírus mata milhares, mas a resposta estatal arruina milhões, e os contratos sigilosos rendem fortunas a um clube muito específico de beneficiários que jamais aparece nas manchetes da CNN.
Me diz uma coisa: por que o reflexo automático do poder, diante de qualquer ameaça biológica, é mobilizar trilhões antes de mobilizar bom senso? Porque a infraestrutura criada em 2020, aquela máquina de imprimir dinheiro acoplada a uma máquina de imprimir regulamentos, não foi desmontada. Continua lá, oleada, pronta, à espera do próximo pretexto. E o pretexto, quando não vem, é fabricado, ou pelo menos amplificado, porque burocracia ociosa é burocracia que perde verba no próximo ciclo orçamentário. O incentivo perverso está no DNA da máquina.
A frase "não se espalha facilmente" merece autópsia. Se é verdade, por que então o presidente está falando sobre isso? Se não é verdade, por que está minimizando? Há uma terceira hipótese, a mais provável: o governo precisa parecer competente diante de qualquer evento, porque o ritual da competência substituiu a competência real faz tempo. Aparecer fazendo algo é mais importante do que fazer algo. E o jornalismo dócil que multiplica o comunicado oficial sem perguntar quem ganha, quanto custa e o que se vê versus o que não se vê faz parte do mesmo teatro, com bilheteria paga, como sempre, pelo cidadão comum que nunca foi consultado.
A história econômica do último século mostra que toda crise sanitária vira pretexto para expansão monetária, expansão regulatória e expansão de poder executivo. Nunca, nem uma única vez, a estrutura inflada voltou ao tamanho anterior depois que a crise passou. O Estado cresce em emergências e nunca encolhe na bonança. É o cliquete do moinho: gira para um lado e trava. Cada hantavírus, cada gripe, cada nome assustador no noticiário é mais um dente nessa engrenagem, e quem paga o aluguel do moinho é o sujeito que abre o contracheque e descobre que o salário rende menos a cada mês, sem entender exatamente por quê.
O cidadão que aplaude o pronunciamento confunde calma com competência e elogio com prestação de contas. Não são a mesma coisa, nunca foram. Quando o poder se elogia, ele está pedindo que você desligue o cérebro e ligue a televisão. Faça o contrário: desligue a televisão, ligue o cérebro e pergunte para onde foi o dinheiro. A resposta, você já sabe, nunca está no comunicado oficial.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.