Trump anunciou que o novo acordo com o Irã será "muito melhor" do que o anterior, aquele mesmo que ele fez questão de incinerar em 2018 dizendo ser o pior tratado da história. Quer dizer, primeiro se destrói o acordo alegando que era uma vergonha nacional, depois se volta anos depois para costurar outro com o mesmo regime, e agora nos pedem para acreditar que desta vez é diferente, desta vez é sério, desta vez é o acordo definitivo. O roteiro é tão previsível que chega a ser ofensivo à inteligência de quem acompanha política externa há mais de uma semana.

Olha, o ponto que ninguém quer dizer em voz alta é simples. O Irã de 2026 não é o Irã de 2015. Está mais próximo da bomba, mais enfraquecido economicamente pelas sanções, mais isolado depois da derrocada do eixo xiita no Líbano e na Síria, e portanto mais barganhador. Qualquer acordo costurado neste cenário é, por definição, um acordo feito por um regime encurralado que precisa ganhar tempo. E regime encurralado que ganha tempo, historicamente, usa esse tempo exatamente para aquilo que jurou não fazer. Já vimos este filme nos anos 1990 com a Coreia do Norte, e o desfecho foi ogiva nuclear apontada para Seul.

Me diz uma coisa, quem lucra com esse vaivém diplomático? Siga o dinheiro e você encontra a resposta embaixo de cada manchete. Os complexos industriais de defesa ganham com a tensão que antecede o acordo. Os fundos de commodities ganham com a volatilidade do barril, que sobe quando Trump ameaça e desce quando Trump negocia. Os bancos de investimento ganham assessorando os dois lados, porque dinheiro persa descongelado precisa de intermediário ocidental para voltar a circular. E os contribuintes americanos, esses pagam a festa inteira através do orçamento militar inflado que serve de pano de fundo para toda essa encenação.

O que não se vê nessa história é o custo verdadeiro da política externa por impulso. Cada reversão de posição de Washington destrói a credibilidade dos aliados que apostaram na posição anterior. Israelenses, sauditas, emiradenses, todos foram convencidos em 2018 de que o acordo nuclear era uma catástrofe moral que precisava ser rasgada. Agora serão convencidos de que o novo acordo, com cláusulas provavelmente mais frouxas porque o Irã chega mais próximo da bomba, é uma obra de estadista. O nome disto não é diplomacia, é improviso fantasiado de estratégia.

E há o detalhe incômodo da barganha monetária subjacente. Liberar ativos iranianos congelados significa injetar dezenas de bilhões de dólares num regime que financia milícias de Caracas a Beirute. É a velha mágica washingtoniana de resolver problema geopolítico transferindo recurso do bolso de quem não foi consultado para o bolso de quem não deveria recebê-lo. Chamar isto de acordo é eufemismo elegante para o que, no varejo da política, teria outro nome menos apresentável em coletiva de imprensa.

O mercado, esse velho conhecido, vai reagir como sempre reage. Sobe o risk-on, desce o petróleo, analistas de terno escrevem relatórios dizendo que a paz chegou, e seis meses depois descobriremos que as centrífugas iranianas nunca pararam de girar. A única coisa realmente melhor neste novo acordo é a performance da caneta presidencial no momento da assinatura. O resto, como sempre, o tempo se encarrega de desmontar. E o tempo, ao contrário de presidente americano, não muda de posição conforme a pesquisa da semana.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.