Trump olhou para a câmera neste domingo e disse, com a naturalidade de quem faz declarações absurdas há décadas, que os preços da gasolina podem ficar iguais ou "um pouquinho mais altos" até novembro. A gasolina já bate US$ 4,13 o galão. O petróleo disparou 8% logo depois do anúncio do bloqueio do Estreito de Ormuz, cruzando a barreira dos US$ 104 o barril. E o presidente dos Estados Unidos, questionado sobre quando isso vai melhorar, respondeu com o charme de quem não abastece carro há anos: "Acho que vai melhorar. Talvez."
Para entender o que aconteceu, é preciso entender o que é Ormuz. Por ali passa cerca de 20% de todo o petróleo que circula no planeta, incluindo boa parte do abastecimento da Europa, da Ásia e do próprio mercado de derivativos americano. Fechar Ormuz não é uma declaração diplomática, é um terremoto energético em câmera lenta. E desta vez não foi o Irã que fechou: foi Trump que anunciou que a Marinha americana passará a interceptar toda embarcação que tenha pago pedágio ao regime de Teerã. Dois bloqueios simultâneos num estreito que não comporta nem um. A conta, como sempre, recai sobre quem abastece o próprio carro.
A maratona de 21 horas no Paquistão, conduzida pelo vice-presidente JD Vance, terminou sem acordo porque Teerã recusou limitações verificáveis ao seu programa nuclear. Razoável que negociações com o Irã terminem no impasse, foi assim na maior parte dos últimos 45 anos. O que não é razoável é o que vem depois: escalar o conflito com uma ação que o próprio governo americano sabe que vai inflamar os preços do combustível, e em seguida pedir ao eleitorado que aguente a fatura até novembro porque, bem, talvez fique igual, talvez piore um pouquinho. Toda política pública tem custos que o político que a assina raramente menciona. Os empregos criados pelos contratos de defesa aparecem nas manchetes; os dólares a mais que o americano médio vai deixar no posto de gasolina não aparecem em nenhum comunicado oficial.
Siga o dinheiro. Com o petróleo a US$ 104 o barril, as produtoras de shale americanas, que operavam no limite da rentabilidade quando o barril estava abaixo de US$ 70, passam a lucrar de maneira considerável. Os complexos industriais de defesa, que prosperam em qualquer guerra independente do resultado, operam a plena capacidade. As seguradoras marítimas triplicaram os prêmios para navios que operam no Golfo Pérsico. Cada ator dessa cadeia tem interesse em que o conflito dure o suficiente para maximizar os ganhos, mas não tanto que vire uma guerra total que atrapalhe os negócios. É um equilíbrio sórdido que a história conhece bem, mesmo quando os protagonistas mudam de nome e de uniforme.
O que espanta não é que Trump tenha tomado uma decisão arriscada: presidentes americanos tomam decisões arriscadas em política externa há muito tempo. O que espanta é a candura com que ele admite o custo ao próprio eleitorado. "Pode ficar igual ou um pouco mais alto." Dito assim, sem cerimônia, para câmeras de rede nacional, com a aprovação presidencial no pior momento do segundo mandato. Os republicanos já calculam o preço a pagar nas midterms, as pesquisas mostram a guerra impopular, e a resposta oficial é: aguardem. O governo que cria o problema pede paciência para resolvê-lo. É a lógica do bombeiro que acende o incêndio e chega com a mangueira.
Não existe almoço grátis. Existe o almoço que você pagou sem perceber, que vai aparecer na conta mais tarde, com juros. O americano que vai abastecer o carro esta semana está pagando a fatura de uma decisão que não tomou, num conflito que não pediu, em benefício de interesses que jamais serão declarados publicamente. E quando as bombas eleitorais explodirem em novembro, o mesmo governo que disse "talvez piore um pouco" vai tentar explicar como tudo aquilo fazia sentido. Talvez faça. Ou talvez seja mais fácil simplesmente não acreditar em quem já nos disse, com todas as letras, que o problema vai continuar.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.