Donald Trump anunciou, com a naturalidade de quem comenta o clima, que pretende se lembrar das empresas que não pedirem reembolso das tarifas impostas por sua própria administração. Leia de novo, devagar. O governo taxa, o empresário paga, o governo depois devolve uma parte, e o presidente diz que vai guardar na memória os nomes de quem não aparecer de chapéu na mão para pedir de volta o que nunca deveria ter sido tirado. Isto não é política comercial; é protocolo de feudo. O soberano cobra o dízimo, e depois distribui migalhas seletivas para lembrar a cada súdito quem manda na aldeia.
O recado, aparentemente bonachão, esconde a engrenagem mais velha do mundo: o poder discricionário travestido de benevolência. Quando a devolução do imposto depende de relação pessoal com quem mandou cobrar, não existe mais mercado, existe corte. A empresa que pede o reembolso com sorriso e foto vira aliada; a que se cala, por orgulho ou por princípio, vira inimiga silenciosa, anotada numa lista que ninguém viu mas todo mundo sente. É assim que se constrói um capitalismo de compadrio de primeira geração, e o americano médio, que acha que isto é coisa de república bananeira, está vendo nascer em casa o mesmo arranjo que sempre desprezou no resto do mundo.
Siga o dinheiro e o quadro fica nítido. A tarifa encarece o produto importado, o custo é repassado ao consumidor, o consumidor paga mais caro pelo tênis, pela ferramenta, pelo eletrodoméstico. O produtor americano, supostamente beneficiado, recebe em troca um mercado cativo e um fornecedor governamental de privilégios que pode ser cortado no próximo humor presidencial. O dinheiro que sai do bolso da dona de casa de Ohio não volta para ela; vai para o Tesouro, e do Tesouro parte dele retorna, via reembolso, para a empresa que soube pedir. O que se vê é o emprego protegido na fábrica da foto; o que não se vê é o poder de compra evaporando em cada cozinha do país.
Há algo ainda mais sombrio no gesto de prometer memória. Quando o chefe de Estado anuncia publicamente que vai catalogar comportamentos comerciais, ele converte a atividade econômica em teste de lealdade. Nenhum conselho de administração, nenhuma diretoria financeira, vai ignorar o recado. As decisões passam a ser tomadas olhando para Washington antes de olhar para a planilha, e a racionalidade econômica, aquela coisa chata que exige cálculo sóbrio de custo e receita, dá lugar à leitura de humores no gabinete. A empresa deixa de servir o consumidor para servir o palácio, e isto, em qualquer lugar do mundo, tem nome e sobrenome.
O truque retórico de apresentar a tarifa como ferramenta patriótica merece ser desmontado na sua lógica mais simples. Se a tarifa é tão boa para o país, por que existe reembolso? Se o reembolso é tão generoso, por que é condicionado a pedido? Se o pedido é tão trivial, por que o presidente precisa avisar que vai se lembrar de quem não fez? A resposta é a mesma que serve para toda política industrial desde que o mundo é mundo: o imposto é o chicote, o subsídio é o torrão de açúcar, e o animal é sempre o mesmo, a empresa privada que um dia acreditou que bastava produzir bem para prosperar. Agora precisa produzir bem e bajular melhor.
A lição, para quem ainda presta atenção, não é sobre Trump. É sobre qualquer governo que se arroga o direito de escolher vencedores e perdedores na economia. Quando o Estado se mete a engenheiro industrial, o empresário vira cortesão, o consumidor vira pagador involuntário, e a inovação, aquela coisa que só floresce onde o risco é real e a recompensa é legítima, vai morrer por asfixia burocrática. O resto é teatro, com figurino caro e bilheteria cobrada do contribuinte. Tarifa nenhuma protegeu jamais um país; protegeu sempre um grupo, às custas de todos os outros, e o recibo dessa conta sempre chega, pontualmente, para quem menos pode pagar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.