A cena tem grandiosidade de ópera e conteúdo de novela das seis. Trump e Xi, sentados em Pequim, anunciam que vão "trabalhar pela melhora das relações" entre as duas maiores economias do planeta, e a imprensa financeira reage como se o sol tivesse nascido por decreto. Quer dizer, antes desse encontro o americano não podia comprar um celular chinês? O industrial paulista não podia vender soja em Xangai? Olha, o comércio entre os povos das duas potências existe há décadas, apesar dos governos, não por causa deles. O que está sendo "melhorado" ali não é a relação entre americanos e chineses; é a relação entre dois aparatos de Estado que passaram os últimos anos quebrando essa relação a marteladas de tarifa, sanção e bravata.

Siga o dinheiro e a coreografia se explica sozinha. Cada tarifa que Washington impôs nos últimos anos foi paga, em última instância, pelo consumidor americano no caixa do supermercado, e cada retaliação de Pequim foi paga pelo fazendeiro do Iowa que perdeu mercado e teve que ser "socorrido" com subsídio federal, ou seja, com dinheiro tirado do mesmo consumidor já apertado pela tarifa. É o velho truque: o Estado cria o problema, cobra a solução, e ainda posa de salvador na foto oficial. Os industriais bem conectados dos dois lados, esses sim, lucraram com a confusão, porque protecionismo é, no fundo, um arranjo entre burocrata e empresário grande para tornar a vida do pequeno mais cara.

Há algo de cômico, e ao mesmo tempo trágico, em ver dois governos que passaram a década inteira tentando "planejar" cadeias produtivas globais agora descobrirem que essas cadeias têm vida própria e dão prejuízo quando contrariadas. A pretensão de que algum comitê em Washington ou em Pequim consegue calcular o que deve ser produzido onde, por quem, a que preço, é a mesma arrogância que afundou todas as economias planejadas do século passado. O preço de uma soja, o custo de um semicondutor, a rota de um navio, isso não cabe na cabeça de ministro nenhum. Cabe no sistema de preços, que funciona em tempo real quando os ministros calam a boca.

E veja a hipocrisia conjugada: os mesmos que gritam contra "intervenção estrangeira" quando o outro lado age, intervêm sem cessar dentro das próprias fronteiras, fixando juros, imprimindo moeda, distribuindo subsídio, escolhendo setor vencedor. Pequim faz isso com a sutileza de uma marreta, Washington faz com o sorriso de uma agência reguladora, mas a natureza do gesto é a mesma. Quando duas máquinas burocráticas dessa envergadura se encontram para "cooperar", o que está sendo combinado não é liberdade comercial, é divisão de zonas de influência, é fatia de mercado para os campeões nacionais de cada lado, é reserva de cartório para os amigos do rei.

O brasileiro que acompanha isso de longe deveria tirar a lição que nunca aprende. Toda vez que se ouve falar em "acordo estratégico", "relação madura", "parceria de longo prazo" entre governos, traduza assim: vai sobrar imposto novo em algum lugar, vai aparecer subsídio para algum amigo, e o consumidor comum vai pagar a conta sem que ninguém lhe pergunte nada. O comércio internacional não precisa de cúpula, precisa de paz e de governos com pudor. O que se viu em Pequim não foi paz, foi trégua entre dois imperadores cansados de quebrar o que não construíram, prometendo cuidar melhor de algo que funcionaria sozinho se eles parassem de cuidar.

No fim das contas, a única notícia honesta seria esta: dois governos admitiram, sem dizer com todas as letras, que suas guerras comerciais empobreceram seus próprios povos e agora precisam recuar para não perder o resto da legitimidade. Mas como político não confessa derrota, chamam de diplomacia o que é rendição parcial, e de visão estratégica o que é simples cansaço. O mercado mundial agradeceria mais um silêncio prolongado em Pequim e em Washington do que qualquer comunicado conjunto. Liberdade econômica não se assina em mesa de cúpula; ela acontece quando os homens de gravata finalmente saem da frente.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.