Vamos ao fato, sem cerimônia. O médico oficial da Casa Branca veio a público garantir que o presidente dos Estados Unidos está em excelente estado de saúde, ressalvando apenas um inchaço benigno nas pernas, atribuído a uma condição vascular comum em homens de quase oitenta anos, e alguns hematomas nas mãos, atribuídos ao excesso de apertos de mão e ao uso regular de aspirina. Traduzindo do medicalês para o português: o sujeito tem a circulação de quem já viveu o que tinha que viver, e a imprensa do planeta inteiro parou tudo para tratar disso como se fosse a queda de Constantinopla.

Quer dizer, o homem que comanda o maior arsenal nuclear da história, que assina ordens executivas redesenhando o comércio global, que numa canetada move trilhões de dólares entre setores e fronteiras, esse homem tem perna inchada. E daí? Reis envelheceram no trono desde que existe trono. O detalhe que ninguém comenta é outro: a obsessão pela saúde do soberano sempre foi sintoma de um regime que personalizou o poder além da conta. Quando a república funciona, ninguém precisa medir a pressão do presidente toda semana, porque o sistema é maior que o homem. Quando a república vira corte, cada espirro do chefe vira manchete porque cada decisão dele vira destino.

E é aqui que a coisa fica interessante para quem segue o dinheiro em vez de seguir o teleprompter. Enquanto a CNN debate o tornozelo presidencial, o Tesouro americano emite dívida em ritmo que faria corar os impérios decadentes da história, o Federal Reserve segue brincando de afinar juros como quem ajusta o som de uma vitrola enquanto a casa pega fogo, e o déficit federal caminha para territórios que nem os keynesianos mais entusiasmados ousavam sonhar há vinte anos. A saúde do presidente é uma cortina de fumaça conveniente, e a fumaça nunca aparece por acaso. Cada minuto gasto especulando sobre a panturrilha do Trump é um minuto que o cidadão americano não está perguntando por que o poder de compra do salário dele encolheu trinta por cento na última década.

Existe um padrão antigo nisso. Bizâncio agonizava enquanto os cronistas detalhavam a dieta do imperador. Versalhes desabava enquanto a corte debatia o humor do rei. O império espanhol quebrava enquanto Madri se preocupava com a melancolia de Filipe. Toda vez que uma civilização entra em fase terminal, a elite culta se distrai com a fisiologia do soberano para não encarar a aritmética da decadência. É mais fácil discutir hematoma do que discutir por que sete dólares de hoje compram o que um dólar comprava nos anos sessenta. Hematoma todo mundo entende; engenharia monetária dá trabalho e desagrada quem manda.

E tem o outro lado, igualmente sintomático: a indústria do pânico médico em torno de figuras políticas virou negócio bilionário. Hospitais lucram, laboratórios lucram, consultores de imagem lucram, redes de notícia lucram. Cada boletim médico é evento de mídia, cada exame é manchete, cada palpite vira coluna. O cidadão sai dali achando que entendeu de política porque memorizou os medicamentos do presidente, e o aparato continua girando, intocado, alimentado por essa farsa terapêutica que confunde fofoca clínica com análise de poder. O verdadeiro check-up que precisaria ser feito é no balanço do banco central, não na perna do presidente.

Trump tem perna inchada e mão arroxeada. Anotado. Agora, alguém pode me dizer quanto custou a dívida americana só nesta semana, quantos bilhões o Fed injetou silenciosamente no sistema bancário no último trimestre, e por que ninguém faz boletim médico do dólar, que está visivelmente mais doente que o presidente? A saúde que devia preocupar o eleitor não está nas pernas de quem governa, está no bolso de quem é governado. Mas isso, claro, não rende manchete bonita.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.