O bloqueio começou às dez da manhã de segunda-feira, horário de Brasília, com toda a solenidade burocrática que os militares americanos gostam de emprestar a atos que, em linguagem direta, significam: nós decidimos o que passa e o que não passa pelo canal que move vinte por cento do petróleo do planeta. O CENTCOM escolheu palavras cuidadosas, como fazem sempre, falando em "embarcações relacionadas ao Irã" como se isso fosse uma distinção cirúrgica e não um convite aberto para que qualquer capitão nervoso tome uma decisão errada num estreito onde a margem para erros é de dezoito milhas náuticas.
O colapso das negociações de paz não deveria surpreender ninguém que presta atenção à dinâmica dessas conversas. Diplomacia com prazo de validade artificial nunca foi diplomacia, foi teatro para consumo doméstico. Trump entrou nas negociações com a mesma filosofia com que entra em qualquer negócio: a outra parte precisa capitular, não chegar a um meio-termo. O Irã, por sua vez, nunca teve incentivo para entregar seu único ativo de barganha estratégico antes de receber garantias concretas. Quando duas partes chegam à mesa com exigências mutuamente excludentes e nenhuma disposição de ceder no essencial, o que colapsa não são as negociações, é a pretensão de que havia negociação.
Siga o dinheiro, como sempre. O bloqueio do Hormuz é, antes de qualquer coisa, um evento de preço. Petróleo sobe. Contratos futuros explodiram nas primeiras horas. Quem comprou posição comprada em petróleo na semana passada acaba de ter um fim de semana muito lucrativo. Não se trata de conspiração, trata-se de consequência previsível, e consequências previsíveis atraem apostadores com informação de qualidade. Os mesmos lobbies do complexo industrial-militar que financiam campanhas em Washington agora verão seus contratos de defesa engordarem com a lógica simples de que ataques, mesmo "limitados", exigem reposição de munição, manutenção de plataformas e, inevitavelmente, expansão de capacidade. O contribuinte americano financia o espetáculo. O consumidor global paga o ingresso.
A palavra "limitado" merece atenção especial porque ela faz todo o trabalho político pesado nessa narrativa. Nenhuma guerra na história começou com alguém anunciando que seria ilimitada. A intervenção americana no Vietnã começou com "assessores militares". A segunda guerra do Golfo começou com "missão cirúrgica". O Iraque deveria estar pacificado em semanas. A palavra "limitado" é o eufemismo que permite ao poder executivo iniciar algo que o poder legislativo jamais aprovaria se descrito com honestidade. E uma vez que o primeiro míssil é lançado, o "limitado" passa a ser definido pelos eventos, não por quem o declarou.
Para o Brasil, a conta chega de forma indireta mas real. Petróleo mais caro pressiona câmbio, pressiona custos de transporte, pressiona toda a cadeia produtiva de um país que ainda não se livrou da memória inflacionária dos anos oitenta. O Banco Central brasileiro, que já opera num ambiente de juro alto tentando conter pressões domésticas, vai ter que explicar para a população que parte da conta que chegará nos próximos meses tem endereço em Washington e Teerã, não em Brasília, embora Brasília invariavelmente apareça como réu no tribunal da opinião pública. Crises geopolíticas são um presente envenenado para economias emergentes: elas importam a instabilidade sem importar nenhuma das vantagens que a superpotência mantém para si.
O que se passa no Hormuz não é excepcional, é apenas o momento em que fica difícil ignorar o que sempre esteve lá: que a ordem internacional é, na prática, o reflexo da vontade de quem tem mais canhões, e que essa vontade muda conforme os ciclos eleitorais, os humores presidenciais e os cálculos de quem financia os humores presidenciais. A civilização que construiu o direito internacional, o livre comércio e as instituições multilaterais como resposta às guerras do século vinte está, metodicamente, desmontando cada um desses mecanismos quando eles deixam de ser convenientes. O que vem depois disso não é paz, é apenas a próxima crise esperando sua hora.
Com informações do ZeroHedge. A análise e opinião são d'O Algoz.