Há um estreito de 34 quilômetros de largura no mínimo, ladeado em ambas as margens por território iraniano, por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. Neste domingo, o presidente dos Estados Unidos anunciou que vai bloqueá-lo. O Irã, que há décadas instalou mísseis antinaviose drones de ataque em cada promontório daquela costa, respondeu que quem se aproximar vai ao fundo do mar. O barril de Brent reagiu na hora, como reage toda vez que alguém resolve transformar a maior artéria energética do mundo em campo de batalha, e chegou a 104 dólares. O que ninguém está dizendo com clareza é que essa conta já está sendo distribuída silenciosamente entre bilhões de pessoas que não votaram nessa guerra, não foram consultadas sobre ela e não verão um centavo do que está prestes a ser gasto em nome delas.

Bloqueios navais têm uma história curiosa: funcionam contra potências que dependem do mar para sobreviver e precisam de anos para construir alternativas. O que raramente se menciona é que eles também funcionam como convite formal ao confronto. Não existe bloqueio que o adversário simplesmente aceite como fato consumado e siga em frente. Ou ele capitula, caso em que já estava exausto antes do bloqueio, ou ele força a passagem, e aí você não tem mais uma crise diplomática, tem uma guerra aberta. O Irã não está exausto. Tem mísseis balísticos com alcance suficiente para atingir qualquer porta-aviões no Golfo Pérsico, tem enxames de drones que custam 500 dólares cada e afundam fragatas de 800 milhões, e tem a vantagem que nenhum almirante de sala de guerra gosta de admitir: eles estão em casa, e o oponente cruzou o oceano para chegar lá.

Siga o dinheiro e a nebulosidade some na hora. Enquanto os noticiários debatem se Trump está certo ou errado em termos estratégicos, as ações da Raytheon, da Lockheed Martin e da Northrop Grumman subiram entre 6 e 9% na semana. Os contratos de fornecimento de mísseis Tomahawk já estavam em pauta muito antes do colapso das negociações em Islamabade. A Arábia Saudita, cujo orçamento federal equilibra quando o barril fica acima de 80 dólares, acordou com petróleo a 104 e nenhuma necessidade de fazer nada. As companhias de exploração em xisto dos Estados Unidos, que ficaram praticamente paradas com o barril abaixo de 75, voltaram a ser negócio viável da noite para o dia. Quem paga essa conta não tem lobby em Washington, não tem lobista em Brasília e não vai aparecer em nenhuma cerimônia de entrega de contratos de defesa. É o motorista de aplicativo que vai repor o gás no fim do mês, o caminhoneiro que vai repassar o frete, e o consumidor final que vai encontrar tudo um pouco mais caro na gôndola do supermercado.

A lógica do intervencionismo tem uma mecânica que se repete com monotonia desconcertante: cada crise gera uma resposta que gera uma crise maior, que exige uma resposta ainda maior. A presença militar americana no Oriente Médio existe há décadas precisamente para "garantir a estabilidade" do fluxo de petróleo pela região. Essa presença irritou o Irã, que respondeu com seu programa nuclear, que gerou sanções, que geraram ressentimento, que produziu o endurecimento do regime, que agora está apontando mísseis para os porta-aviões americanos que foram enviados para garantir a estabilidade. O círculo se fecha sempre no mesmo ponto: mais instabilidade, mais gastos, mais mortes, e um novo pretexto para o próximo ciclo. Nenhum planejador central, por mais genial que seja, consegue calcular em tempo real os efeitos em cascata de fechar o torneirão de um quinto do petróleo mundial. O mercado já calculou: 104 dólares o barril.

O porta-voz do Ministério da Defesa iraniano que disse que Trump fracassará não estava fazendo retórica de propaganda barata. Estava enunciando uma realidade geográfica que qualquer cartógrafo confirma. Forçar um bloqueio efetivo no Estreito de Ormuz exigiria eliminar todos os sistemas de mísseis nas costas iranianas de ambos os lados do estreito, o que significa um conflito de escala muito maior do que qualquer operação naval cirúrgica. Significa guerra terrestre, guerra aérea de larga escala, e um conflito que rapidamente deixa de ser sobre Ormuz e passa a ser sobre Teerã. E aí os 104 dólares por barril vão parecer nostalgia.

Para o Brasil, que importa petróleo e derivados e cuja inflação está estruturalmente atrelada ao preço do combustível, cada dez dólares de alta no barril se traduz em pressão sobre o IPCA em seis a doze meses. O Banco Central vai olhar para o câmbio, o câmbio vai olhar para o risco global, o risco global está olhando para um estreito de 34 quilômetros onde dois países trocam ameaças de afundamento mútuo. A decisão foi tomada em Washington. A conta chegará em Brasília, em São Paulo e em cada posto de gasolina do país. Sempre foi assim: os que decidem as guerras raramente são os que as financiam.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.