A cena merece ser saboreada devagar. Uma analista de um banco parisiense senta-se diante da câmera da Bloomberg e anuncia, com a serenidade de quem lê o cardápio do almoço, que Donald Trump "vai ter que ceder" na duração da guerra contra o Irã porque "os mercados querem empurrá-lo" nessa direção. Qualquer coisa além de dois meses, diz ela, seria "extremamente disruptiva". Repare no verbo. Disruptiva para quem? Para o soldado no deserto? Para a família iraniana sob bombardeio? Para o contribuinte americano que paga a conta? Nada disso. Disruptiva para o preço do barril, para o spread dos títulos, para o humor do S&P. É o mundo visto pela janela do 40º andar de uma torre envidraçada, onde a carnificina vira ruído estatístico e a paz vira tese de investimento.

Há algo profundamente revelador nessa franqueza. Durante décadas nos disseram que a política externa era conduzida por interesse nacional, valores democráticos, segurança estratégica, essas palavras solenes que enfeitam discurso de posse. Agora uma senhora de terninho explica, em horário nobre, que a agenda bélica do ocupante da Casa Branca tem prazo de validade fixado pelos operadores de Londres e Nova York. E ninguém se escandaliza. Ninguém pergunta em que momento da história republicana o comandante-em-chefe virou funcionário terceirizado dos detentores de títulos do Tesouro. A resposta, incômoda, é que ele sempre foi, só que antes tinham a decência de disfarçar.

Siga o dinheiro e o mapa se revela. Guerra prolongada significa petróleo caro, inflação renovada, pressão sobre juros que o Federal Reserve prometeu cortar, dólar instável, dívida americana de trinta e tantos trilhões ficando mais cara de rolar a cada ponto-base. Traduzindo: Washington não pode se dar ao luxo de uma guerra longa não porque descobriu o pacifismo, mas porque quebrou o cofre há muito tempo e agora vive de crédito rotativo. O império que imprime a moeda de reserva do planeta está sendo disciplinado pela própria impressora. Bonito de ver, num certo sentido trágico.

E aqui mora a ironia que os comentaristas de boa educação fingem não perceber. A mesma classe financeira que aplaudiu décadas de expansão monetária, que lucrou com cada rodada de estímulo, que engordou com dinheiro barato fabricado do nada, é agora a que aperta o cinto do governo e define quantas semanas de bombardeio o orçamento comporta. Quem semeou o banquete colhe a ressaca. A dependência do Tesouro em relação ao mercado de dívida não é acidente, é consequência matemática de oitenta anos escolhendo imprimir em vez de produzir, gastar em vez de poupar, prometer em vez de entregar. O que se vê hoje, um presidente republicano recuando diante de uma planilha, é apenas o que não se quis ver ontem, quando cada novo pacote trilionário era celebrado como vitória.

Existe, claro, um lado quase edificante nisso tudo. Se o custo financeiro da guerra começa a funcionar como freio onde a moral política falhou, que seja bem-vindo o freio, venha de onde vier. Guerras longas sempre foram o combustível preferido do Estado inchado, a desculpa universal para suspender liberdades, aumentar impostos, centralizar poder e calar opositores em nome da emergência. Se os juros altos conseguem o que os manifestantes não conseguem, o mercado, nesse caso específico, presta um serviço civilizacional que os ministros jamais prestariam. Não é virtude, é aritmética. Mas aritmética que salva vidas também conta.

Resta a pergunta que ninguém quer formular em voz alta. Se o presidente mais poderoso do mundo obedece à curva de juros, quem governa de fato a República? A resposta não está nas cartilhas de educação cívica, está no fluxo de caixa do Tesouro. E quando um país precisa consultar a tela da Bloomberg antes de decidir até quando pode defender seus próprios interesses declarados, a soberania virou figura de linguagem. Os romanos tinham uma palavra para isso, e não era república.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.