O ouro bateu recordes sucessivos nas últimas semanas e a imprensa financeira trata o fenômeno como se fosse meteorologia, algo imprevisível que caiu do céu por culpa exclusiva das birras tarifárias do ocupante do Salão Oval. É uma leitura conveniente, quase infantil, porque dispensa qualquer incômodo com a causa real do movimento. O ouro não está subindo porque Trump acordou de mau humor, o ouro está subindo porque bilhões de pessoas ao redor do planeta finalmente desconfiam que o papel verde impresso em Washington vale cada vez menos, e que o sujeito sentado no Salão Oval é apenas o sintoma mais barulhento de uma doença que começou décadas antes dele existir politicamente.
Quando o banco central de um país gasta anos fabricando moeda do nada para financiar guerras perdidas, estímulos eleitoreiros e resgates a Wall Street, o resultado não é prosperidade, é uma bolha de confiança que sustenta o sistema enquanto ninguém olha para baixo. Basta um presidente errático, uma sanção mal calculada, um congelamento de reservas estrangeiras, e o mundo inteiro começa a olhar para baixo ao mesmo tempo. Foi o que os bancos centrais da Ásia, do Oriente Médio e da América Latina fizeram desde 2022, comprando ouro em volumes que não se viam desde o fim de Bretton Woods. Eles sabem o que a CNBC finge não saber.
Me diz uma coisa, se o dólar fosse realmente a reserva de valor inabalável que os editoriais do New York Times juram que ele é, por que justo os governos mais bem informados do planeta estariam trocando papel por metal a toque de caixa? A resposta é constrangedora para quem vive do consenso. Porque eles entenderam o recado que o cidadão americano ainda não quer ouvir: a moeda fiduciária emitida por um império endividado em trinta e seis trilhões, politicamente capturado e monetariamente promíscuo, é um ativo podre fantasiado de porto seguro. O ouro não subiu, o dólar afundou, e alguém precisava inventar um culpado de cabelo alaranjado para evitar a pergunta de verdade.
E aqui entra a parte que quase ninguém quer encarar. A volatilidade causada pelas tarifas, pelas ameaças contra o presidente do Fed, pelas ordens executivas redigidas às três da manhã, tudo isso é combustível, não ignição. A ignição foi acesa quando se decidiu que governo podia gastar o que não tem, que banco central podia imprimir o que não lastreia, e que o dinheiro dos outros existia para ser pilhado por quem tivesse caneta em Washington. O caos atual é apenas a fatura chegando com juros compostos de meio século de irresponsabilidade bipartidária, e o ouro é o termômetro que mede a febre que o paciente negou até ontem.
Siga o dinheiro e você verá o arranjo inteiro: bancos centrais estrangeiros comprando metal, fundos soberanos montando posições, famílias asiáticas acumulando barras, enquanto o americano médio continua acreditando que seu plano de aposentadoria em títulos do Tesouro é conservador. Conservador coisa nenhuma, é suicídio em câmera lenta. O cidadão foi convencido de que risco é sair da moeda, quando a moeda é exatamente o risco. E toda vez que o governo anuncia um novo pacote trilionário para salvar alguém, o ouro responde com a única linguagem que não mente, a do preço.
A tragédia não é Trump estar enlouquecendo os mercados, a tragédia é que os mercados já estavam loucos e apenas fingiam sanidade enquanto o anestésico monetário durava. Agora que a dose não funciona mais, aparece o presidente errático como bode expiatório conveniente para um colapso que já estava contratado. Ouro a preços históricos não é sinal de que o mundo ficou maluco, é sinal de que o mundo está finalmente acordando. Pena que, quando o americano médio acordar, o café da manhã já terá sido servido para os chineses.
Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.