Repare na cena, porque ela vale mais que mil editoriais. O presidente dos Estados Unidos, que durante anos vendeu ao eleitorado a tese de que vender semicondutor avançado para a China era praticamente entregar a chave do cofre nuclear para o adversário, agora cruza o Pacífico com Jensen Huang no jatinho oficial para, nas palavras delicadas da diplomacia, "abrir mercado". Abrir mercado é o eufemismo polido para o que está realmente acontecendo: derrubar, sob aplausos, a mesma muralha que o próprio governo passou anos erguendo às custas do contribuinte e da retórica de segurança nacional.

Quer dizer, ou a venda de chips Nvidia para Pequim era um risco existencial em 2023, e nesse caso o presidente está agora cometendo traição comercial em plena luz do dia, ou nunca foi risco coisa nenhuma, e o embargo serviu apenas para criar escassez artificial, inflar a fila de pedidos, valorizar as ações da empresa e, de quebra, dar carta de barganha para o ocupante da Casa Branca usar quando bem entendesse. As duas hipóteses são constrangedoras. Escolha a que machuca menos o seu coração patriota.

Siga o dinheiro, que é onde mora a verdade. A Nvidia virou, em poucos anos, a empresa mais valiosa do planeta exatamente porque o governo decretou que ninguém vendesse para a China e, em seguida, abriu exceções customizadas, autorizações cirúrgicas, chips capados sob medida para driblar a regra que ele mesmo criou. É o esquema clássico do capitalismo de compadrio: o Estado cria o problema, vende a solução, e a conta vai para o consumidor final na forma de chip mais caro, produto mais lento, software mais limitado. O empresário em conluio com o burocrata sempre rende mais que o empresário concorrendo no mercado aberto, e aqui o conluio nem precisa de disfarce, voa de avião presidencial.

O que ninguém comenta, porque é invisível por definição, é o custo do que foi desviado. Toda a energia produtiva, todo o capital, todo o tempo de engenheiros geniais que foi gasto em adaptar produtos para fugir de regulação americana, em abrir escritórios de lobby em Washington, em decifrar a próxima portaria do Departamento de Comércio, é energia que não foi gasta em inovação real. A regulação não protege o consumidor, protege quem tem advogado caro e amigo no gabinete. O concorrente menor, o startup que não consegue pagar consultor regulatório, esse morre em silêncio antes mesmo de aparecer no radar.

E tem o detalhe filosófico, que é o que mais incomoda. Quando o chefe do Executivo decide pessoalmente quem vende, para quem vende, em que condições vende e por que preço vende, ele não está governando uma república de mercado livre, está pilotando uma economia de corte, daquelas em que o súdito mais próximo do trono recebe a concessão e os outros que se virem. É a versão moderna da carta régia, com hashtag e foto na rede social. O cidadão comum acha que está vendo política externa firme; está vendo, na verdade, a redistribuição organizada de oportunidades para quem soube apertar a mão certa na hora certa.

Me diz uma coisa, se o livre comércio era bom o suficiente para enriquecer o ocidente nos últimos duzentos anos, por que precisa agora de presidente como caixeiro viajante de luxo para destravar negócio que o próprio presidente travou? A resposta é desconfortável e por isso ninguém quer ouvir: porque o jogo nunca foi sobre segurança nacional, foi sobre quem manda no semáforo. E quem manda no semáforo decide quem passa, quem para, e quem paga o pedágio. O resto é fumaça para entreter quem ainda acredita em comunicado oficial.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.