Trump publicou, na tarde deste domingo, uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparece vestido com túnica branca, a mão pousada sobre a testa de um homem enfermo numa cama de hospital, luz irradiando da cena como numa pintura renascentista de cura milagrosa. Ao fundo: águias, bandeira americana, aviões de caça e a Estátua da Liberdade. Faltou o cordeiro. A imagem ficou no ar por tempo suficiente para provocar protestos de aliados fervorosos, incluindo membros da sua própria base evangélica que usaram a expressão "espírito do Anticristo" sem ironia alguma, e então foi deletada. A explicação presidencial para o ocorrido foi, digamos, memorável: Trump disse aos repórteres que pensou que a imagem o mostrava "como um médico".

O episódio seria apenas mais uma bizarrice do noticiário americano se não viesse embalado em contexto. Minutos antes de publicar a imagem, Trump havia atacado o Papa Leão XIV na mesma rede social, chamando-o de "fraco no combate ao crime" e "terrível em política externa". Quer dizer: o presidente dos Estados Unidos, às vésperas do período pascal, achou por bem insultar o chefe espiritual de um bilhão e quatrocentos milhões de católicos e, na sequência imediata, publicar uma imagem de si mesmo como Jesus Cristo curando enfermos. A cronologia tem uma lógica interna que não é acidente nem senilidade. É confissão.

Toda civilização que perde o senso do sagrado acaba fabricando substitutos. Quando os altares esvaziam, os palanques se enchem. A política moderna, nos seus momentos mais febris, tem se comportado menos como administração pública e mais como liturgia de uma nova religião, com seus profetas, mártires, relicários e clero de comentaristas pagos. Trump entendeu esse mecanismo antes dos seus críticos, que aliás cometem o mesmo erro com signo invertido, pois há tanta religiosidade pagã no culto à democracia progressista quanto no círculo de fiéis de boné vermelho que chora em comícios. Mas o que ninguém esperava era que o próprio Trump formalizasse a teologia de forma tão explícita, literalmente se representando como o Filho de Deus impondo as mãos sobre um doente. A idolatria raramente tem consciência de si mesma. Aqui ela posou para a câmera.

Existe uma lei não escrita do poder que os grandes impérios aprenderam a custo: o governante que começa a exigir reverência divina entrou em fase terminal. Não terminal como quem vai morrer amanhã, mas terminal como quem perdeu o senso de proporção que distingue o estadista do déspota. Os imperadores romanos que se fizeram deificar eram, na maioria, homens que o voto, o medo e a força já não satisfaziam. Precisavam de uma legitimidade diferente, mais profunda, mais absoluta. A imagem que Trump postou e depois fingiu ser "um médico" não é piada de mau gosto, é dado de diagnóstico. O homem que governa o país mais poderoso do mundo sentiu necessidade de se apresentar como figura sagrada no exato momento em que entrava em conflito com uma autoridade religiosa de dois mil anos de história. Isso diz menos sobre Trump do que sobre o estado de uma civilização que produziu esse momento sem a menor capacidade de compreender o que ele significa.

O Papa, vale notar, não respondeu aos insultos com insultos. Prometeu continuar defendendo a paz. Não sacudiu o punho, não desceu ao nível da rede social, não publicou a si mesmo como Moisés abrindo o Mar Vermelho. Fez o que as instituições de autoridade genuína fazem quando confrontadas com encenação: ignorou o espetáculo e continuou existindo. Uma instituição com dois mil anos de história não precisa se defender de posts deletados. Trump, com setenta e nove anos e a maior plataforma de poder do planeta, precisou apagar uma foto e inventar que era um médico. Me diz uma coisa: quem exatamente tem problema de legitimidade nessa história?

O episódio será enterrado até sexta-feira. Haverá outra tarifa, outro general demitido, outra declaração sobre a Groenlândia, e este momento afundará no arquivo interminável das curiosidades trumpianas. Mas o arquivo cresce, e um dia alguém o abrirá e verá que o maior poder do mundo, no auge de sua demonstração de força, sentiu necessidade de se vestir de Cristo para convencer a si mesmo de que ainda tinha razão. O poder que precisa do sagrado para se justificar é o poder que já perdeu a razão de existir.

Com informações do Valor Econômico, The Hill, Newsweek e Axios. A análise e opinião são do O Algoz.