Segundo o Wall Street Journal, a Casa Branca calibra um bloqueio de longa duração contra o Irã, sufocando exportações de petróleo, apertando bancos correspondentes, ampliando sanções secundárias e mantendo presença naval pesada no Golfo Pérsico. A retórica oficial fala em conter um regime que financia milícias e flerta com o ciclo do urânio enriquecido. A retórica não-oficial, aquela que se sussurra nos corredores em Washington, fala de outra coisa: controle do fluxo energético global, disciplinamento da OPEP+ e pressão sobre a China, que compra dois terços do petróleo iraniano com desconto camarada. Quando uma decisão presidencial movimenta simultaneamente Pentágono, Tesouro e Casa de Saud, é bom desconfiar das motivações declaradas.
Vale lembrar que sanção econômica nunca é cirúrgica, por mais que os comunicados digam o contrário. Funciona como um cobertor mofado jogado sobre toda a economia atingida, e o tecido inevitavelmente respinga sobre vizinhos, fornecedores e, principalmente, sobre o consumidor americano e europeu que abastece o carro no posto. Cada barril iraniano fora do mercado é um barril a mais de prêmio embutido no preço internacional, e esse prêmio não some no ar; ele vira inflação no supermercado, frete mais caro, fertilizante mais salgado e, no fim da linha, salário real comido pela política externa de quem nunca pôs gasolina no próprio carro.
Há também a parte que ninguém quer ver, a parte que o discurso oficial encobre com bandeira e hino. Bloqueios prolongados não derrubam regimes, fortalecem regimes. O sujeito comum em Teerã, que poderia ser um aliado natural da modernização, vira refém duplo: do aiatolá em casa e do embargo lá fora. O resultado histórico é sempre o mesmo, repetido com a regularidade de uma maré: o povo empobrece, os generais enriquecem com mercado paralelo, a oposição interna definha e o regime usa o cerco externo como justificativa para apertar o cerco interno. Já vimos esse filme em Cuba durante seis décadas, na Venezuela durante duas, e nem por isso aprendemos nada.
Siga o dinheiro e o quadro fica menos romântico. Quem ganha com petróleo a noventa, cem, cento e vinte dólares o barril? As majors americanas, que renegociam contratos de fornecimento com margens gordas. O xale saudita, que volta a ser indispensável e exige contrapartidas em armamento. As empreiteiras de defesa, que nunca tiveram tantos pedidos pendentes. Os hedge funds posicionados em energia, que lucram nas duas pontas da volatilidade. E o eleitor médio, esse paga a conta calado, achando que está defendendo a civilização ocidental enquanto enche o tanque com lágrima embutida no preço do litro.
O ponto mais cínico, porém, é o monetário. Quando o petróleo dispara, o Banco Central americano enfrenta o velho dilema entre derrubar a inflação subindo juros e quebrar a economia, ou fingir que não viu e deixar o dólar derreter na bomba. Historicamente, prefere a segunda opção, porque política é mais sobre evitar manchete ruim no curto prazo do que sobre preservar poder de compra no longo. Quem comprou Treasury esperando rendimento real volta para casa com prejuízo silencioso, descontado pela impressora. O bloqueio ao Irã, vendido como peça de geopolítica, opera também como subsídio invisível à dívida americana via inflação. É elegante, é eficiente, e é absolutamente impune.
Que ninguém se iluda com o roteiro. Existe um problema real com o regime iraniano, existe ameaça concreta, existe motivo legítimo para preocupação. Mas a história ensina que potência que combate tirania por fora costuma importar pedacinhos da tirania para dentro de casa, em forma de vigilância, de impostos de guerra, de poderes emergenciais que nunca são revogados depois que a emergência passa. O cerco ao Irã pode até funcionar contra os aiatolás. A pergunta que ninguém faz, e que talvez seja a única que importe, é o que sobra da liberdade do cidadão comum quando a poeira do cerco assentar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.