Trump abriu a boca, disse que o entendimento com o Irã caminha, e os pregões reagiram com aquela coreografia previsível em que o petróleo cede um pouco, as bolsas sobem um tanto e os analistas de paletó correm para os microfones explicar o que já aconteceu como se tivessem previsto. É o teatro de sempre. O presidente americano sinaliza, o mercado interpreta, e a interpretação dura até o próximo tweet, o próximo desmentido, o próximo embaixador convocado às pressas. Quem opera com base nesse tipo de sinalização não está investindo, está apostando, e há uma diferença moral importante entre uma coisa e outra que Wall Street fingiu esquecer há décadas.

O detalhe que ninguém quer encarar é que o preço dos ativos hoje não reflete a realidade econômica do Irã, dos Estados Unidos ou do Oriente Médio; reflete o palpite coletivo sobre o humor de um homem só. Isso não é mercado, é cortesania. E cortesania, quando vira mecanismo de formação de preço, é o sintoma mais claro de que o sistema financeiro global perdeu o eixo. Quando o destino de trilhões em capitalização depende de um aceno presidencial, não estamos diante de capitalismo nenhum, estamos diante de uma monarquia disfarçada de república em que o soberano se comunica por rede social.

Vale seguir o dinheiro, como sempre. Quem ganha com a tensão? O complexo industrial militar americano, que vende blindados, mísseis e sistemas de defesa para a região inteira a cada vez que alguém pisca em Teerã. Quem ganha com o degelo? As petrolíferas que desejam o barril iraniano de volta ao mercado legalizado, os bancos que sonham em destravar ativos congelados, os intermediários que cobram pedágio em qualquer transação que envolva sanção levantada. Repare que o cidadão comum, americano ou iraniano, não aparece em nenhuma dessas contas. Ele paga pela guerra com imposto e paga pela paz com inflação, porque o dólar que financia uma e outra sai sempre da mesma impressora.

O otimismo do mercado, esse otimismo que os jornais chamam de cauteloso para parecer maduro, esconde uma incerteza estrutural muito mais profunda. Ninguém em Nova York acredita seriamente que o regime dos aiatolás vá renunciar ao programa nuclear porque Trump foi simpático numa entrevista. O que se aposta é coisa menor, é o intervalo entre uma crise e outra, é o respiro de seis meses em que se pode comprar barato e vender caro antes do próximo episódio. É a economia da janela curta, a mentalidade do especulador que substituiu a do empreendedor, e ela domina porque o ambiente de juros manipulados e moeda fiduciária recompensa quem aposta no curto prazo e pune quem planeja para a próxima década.

Há ainda o aspecto que os comentaristas de televisão não tocam por covardia ou ignorância: a diplomacia americana não tem mais a credibilidade que tinha. Acordo nuclear assinado num governo é rasgado no seguinte, sanção retirada numa terça volta na quinta, aliado de ontem é inimigo de hoje. Nenhum país sério negocia com quem muda de roupa a cada quatro anos esperando coerência estratégica. Os iranianos sabem disso, os russos sabem disso, os chineses sabem disso, e por isso seguem construindo arranjos paralelos que dispensam o dólar, o sistema SWIFT e a boa vontade de Washington. O acordo que Trump sinaliza, se vier, será mais um capítulo dessa erosão, não uma vitória diplomática.

O que fica para o investidor com juízo, e para o cidadão que ainda lê notícia econômica com algum espírito crítico, é a constatação incômoda de que vivemos num arranjo em que política externa virou commodity, paz virou ativo negociável, e o anúncio de uma trégua move mais capital do que a abertura de mil fábricas. Isso não é sinal de civilização avançada, é sinal de uma civilização que confundiu liquidez com riqueza e gesto presidencial com política séria. O mercado vai festejar enquanto durar a sinalização e vai chorar quando a realidade voltar a cobrar o aluguel. Como sempre.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.