Domingo à tarde, horário de Washington, e Donald Trump aperta o botão da dramaturgia geopolítica com a sutileza de um leiloeiro de gado: "o relógio está correndo, mexam-se rápido". O destinatário é o regime dos aiatolás, o intermediário era o Paquistão, e a mensagem subjacente é que a tal proposta de paz, anunciada com fanfarra de prêmio Nobel antecipado, já está azedando antes mesmo de chegar à mesa. Analistas que vivem de cheirar pólvora antes da explosão já cravam o diagnóstico: a probabilidade de retorno aos bombardeios subiu, e subiu rápido.
Olha, é preciso ter um certo desprezo pela inteligência do leitor para vender isso como novidade. O roteiro é velho como o petróleo do Golfo. Primeiro, vem o aperto de mão fotogênico e a promessa de "acordo histórico". Depois, vem o impasse calculado, porque ninguém de fato queria ceder nada que importasse. Por fim, vem o ultimato com voz grossa, que serve simultaneamente para agradar a base interna, justificar o orçamento militar inflado e preparar o terreno psicológico para a próxima operação cirúrgica que de cirúrgica não tem nada. O cidadão americano médio assiste à novela achando que está vendo política externa quando, na verdade, está vendo um teatro com bilheteria paga involuntariamente via imposto.
E aqui mora a parte que ninguém quer encarar de frente. Toda escalada militar no Oriente Médio é, antes de qualquer outra coisa, um evento monetário. O barril sobe, o dólar engasga, os contratos futuros se reposicionam, e algum gestor de hedge fund em Manhattan abre champanhe enquanto a dona de casa em Belo Horizonte vê o preço da gasolina engordar sem entender muito bem por quê. Quer dizer, o custo da bravata presidencial é socializado no planeta inteiro, mas o ganho fica concentrado em três círculos muito específicos: o complexo industrial-militar, os apostadores informados do mercado de commodities e os políticos que precisam de um inimigo externo para esconder o desastre fiscal interno.
Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que existe diferença substantiva entre "fazer um acordo" e "ameaçar de guerra" quando o mesmo sujeito faz as duas coisas no mesmo fim de semana? A diplomacia virou pregão de bolsa. Hoje é compra, amanhã é venda, depois de amanhã é short selling, e o ativo subjacente é a vida de soldados e civis que nunca sentaram à mesa onde os dados são lançados. O regime iraniano, claro, não é coro de anjos, é uma teocracia repressiva que financia milícias e enforca dissidentes na praça pública. Mas reconhecer isso não obriga ninguém a embarcar na ficção de que bombas americanas resolvem problemas que sessenta anos de bombas americanas não resolveram.
O ponto cego do debate é sempre o mesmo, e é justamente o que o cidadão deveria enxergar primeiro: o que se vê é a manchete, o discurso, a chamada urgente da CNN. O que não se vê é a fatura. A fatura em dólar impresso do nada para financiar mais um capítulo da aventura, em pressão inflacionária que chega ao supermercado meses depois disfarçada de "fenômeno global", em juros mantidos altos para conter a inflação que o próprio governo fabricou ao bancar a operação. É a velha mecânica do confisco silencioso. Cobrar imposto explícito gera revolta eleitoral; imprimir dinheiro para a guerra gera apenas reclamação difusa contra "a carestia", esse fantasma sem rosto que ninguém sabe quem convocou.
No fim, a pergunta que importa não é se o Irã vai ceder ou se Trump vai recuar. A pergunta é por que continuamos aceitando que o destino de meio planeta caiba na agenda de um único homem com acesso ao botão e à conta corrente alheia. Império, em qualquer época da história, sempre quebrou por dentro antes de quebrar por fora. A diferença é que, desta vez, o relógio que está correndo não é o de Teerã. É o da própria potência que finge controlá-lo.
Com informações da ZeroHedge. A análise e opinião são do O Algoz.