Terceiro mês de guerra, milhares de mortos espalhados pelo Oriente Médio, oferta de energia desarrumada e o barril subindo a cada manchete. Foi nesse cenário que Trump convocou o conselho de segurança nacional para examinar a proposta iraniana de cessar fogo, prometendo se manifestar “muito em breve”. Repare na coreografia: o presidente fala, o petróleo sobe, alguém na mesa de operações de Houston e de Dubai já fechou posição antes do café esfriar. A guerra tem público pagante, e ele não está nas trincheiras.

Quando se fala em conflito no Oriente Médio, a narrativa oficial sempre veste roupa de geopolítica nobre, eixos do mal, defesa da civilização, equilíbrio regional. Tire essa roupa e olhe o corpo nu da coisa. Cada míssil disparado é um contrato de reposição. Cada navio desviado do Estreito de Ormuz é um prêmio de risco embutido no posto de gasolina de Cleveland e no preço do diesel em Sorocaba. Cada rodada de sanções cria um mercado paralelo onde quem tem licença de exceção lucra três vezes. A guerra não é um acidente do sistema, é uma das suas funções.

Convém lembrar que toda essa instabilidade não brotou da areia. Décadas de intervenção, regime change patrocinado, golpes financiados, alianças oportunistas trocadas conforme a estação, plantaram exatamente a colheita que agora se chama crise. Quem destruiu o Iraque criou o vácuo que pariu o Estado Islâmico. Quem armou facções para conter inimigos abasteceu os inimigos seguintes. O contribuinte americano, e por tabela o brasileiro que importa combustível e produtos cotados em dólar, financia há gerações um teatro cujo roteiro já se sabe de cor: cria o problema, vende a solução, cobra os dois.

O detalhe mais saboroso desta semana é o oxímoro do anúncio. Trump construiu carreira política prometendo tirar os Estados Unidos das guerras eternas e agora é ele quem segura o microfone enquanto a cotação do Brent dança ao som da indecisão da Casa Branca. A diferença entre falcão e pomba, no fim, costuma ser de plumagem, não de apetite. Quando o complexo industrial militar tem orçamento garantido por consenso bipartidário, o ocupante do salão oval muda, mas o cardápio servido aos fornecedores permanece. Promessa de campanha tem prazo de validade curtíssimo quando o lobby tem memória longa.

Há uma lição que o brasileiro de 2026 deveria gravar a fogo. Quando alguém lhe disser que a inflação está subindo por causa do petróleo, lembre que o petróleo está subindo porque governos decidiram, em algum lugar, que vale a pena bombardear, sancionar, embargar. A energia mais cara é o produto final de uma cadeia de decisões políticas que ninguém votou e cuja conta chega indistintamente para todos. O imposto inflacionário é o tributo mais democrático que existe, atinge rico e pobre, só que destrói o pobre primeiro. E enquanto o motorista paga mais caro para encher o tanque, alguém em algum andar climatizado comemora o trimestre recorde.

Por isso a tal proposta iraniana, seja ela aceita, recusada, reformulada ou engavetada, importa menos do que se imagina. O fim de uma guerra não desmonta a estrutura que produz a próxima. Enquanto houver moeda fiduciária para imprimir, dívida pública para emitir e contrato bilionário para distribuir, haverá inimigo conveniente no horizonte. A paz duradoura é incompatível com o modelo de financiamento. E a única reforma capaz de mudar isso ninguém propõe, porque atingiria justamente quem assina os cheques da campanha seguinte.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.