Pousou em solo chinês e, antes do chá esfriar, avisou o anfitrião que a campanha contra o Irã segue sem precisar da boa vontade de Xi Jinping. Quer dizer, a cena tem algo de cômico para quem acompanha décadas de chanceleres ocidentais entrando em Pequim de joelhos, pedindo licença para respirar. Desta vez, foi o contrário. O visitante chegou com a conta na mão, sentou na cadeira do dono e disse, com todas as letras, que o petróleo iraniano que abastece refinarias chinesas a preço de banana é problema do chinês, não do americano. E que, se Pequim quiser continuar comprando barril furtivo de aiatolá, que arque com as consequências.
Olha, há uma honestidade brutal nesse tipo de diplomacia que escandaliza o establishment, mas que qualquer comerciante de feira entende em três segundos. Não existe parceria estratégica quando um lado financia o inimigo do outro. A China comprou, nos últimos anos, algo em torno de noventa por cento das exportações de petróleo iraniano, driblando sanções com frotas-fantasma e refinarias-laranja na província de Shandong. Esse dinheiro não some no ar, vira míssil húthi, drone do Hezbollah, centrífuga em Natanz. Quando o americano diz que não precisa de ajuda, está dizendo, na verdade, que sabe perfeitamente quem está pagando o boleto do outro lado, e que vai cortar a torneira na marra.
Me diz uma coisa, em que momento ficou normal o ocidente pedir permissão ao financiador do regime terrorista para combater o regime terrorista? Essa esquizofrenia geopolítica é filha legítima de trinta anos de globalismo de cafeteria, aquela ideia bonitinha de que comércio gera paz e que a China, uma vez integrada à OMC, viraria democracia liberal nos moldes do Vale do Silício. Não virou. Comprou tempo, comprou tecnologia, comprou ativos estratégicos do outro lado do Pacífico, e ainda virou banqueiro da pior teocracia do planeta. O resultado é o que se vê: uma potência que cresceu na boleia da credulidade alheia agora descobre que o trem mudou de maquinista.
Segue o dinheiro, sempre. As refinarias chinesas que processam o cru iraniano estão majoritariamente na órbita de empresas estatais ou semi-estatais, com contratos que são acobertados por bancos regionais protegidos pelo partido. Cada barril descontado em vinte dólares abaixo do Brent é subsídio implícito a Teerã, pago indiretamente pelo contribuinte chinês que vê a moeda derreter enquanto o partido financia aventuras alheias. Quando Washington fecha o cerco sobre essas refinarias, não está atacando a China, está cortando o oxigênio de um arranjo parasitário que só existe porque alguém finge não ver. A bravata em Pequim é a tradução diplomática de uma decisão que já estava tomada nos despachos do Tesouro.
E há o lado psicológico, que é onde a coisa fica saborosa. O regime chinês construiu sua mística doméstica sobre a narrativa do humilhado que voltou a se impor, do gigante que ninguém mais desrespeita. Receber um chefe de Estado estrangeiro que entra na sala e anuncia, sem pestanejar, que vai bombardear os fornecedores do anfitrião é exatamente o tipo de cena que o aparato de propaganda terá dificuldade de digerir. Não há edição do Diário do Povo que conserte aquela foto. E o mercado, que é mais honesto que qualquer analista pago, já precificou: petróleo subindo, yuan tremendo, ações de refinarias chinesas em queda. Os preços nunca mentem, mesmo quando todo mundo está mentindo.
O recado por trás do recado é mais profundo. Estamos vendo o fim daquele equilíbrio confortável em que o ocidente fingia ser duro com regimes párias enquanto seus aliados compravam o petróleo desses mesmos párias pela porta dos fundos. Acabou a hipocrisia logística. Ou se está do lado de quem defende a propriedade, o contrato e a liberdade de navegação, ou se está do lado de quem patrocina sequestrador de navio mercante no Mar Vermelho. Não dá mais para ficar no muro recebendo dividendo dos dois lados. E quem ainda não entendeu isso vai aprender da pior maneira possível, que é com a conta chegando sem aviso prévio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.