Existe uma forma elegante de cobrar pedágio que não requer cabine nem funcionário: você simplesmente fecha a estrada e oferece a única alternativa disponível. O Estreito de Ormuz carrega aproximadamente vinte por cento do petróleo que circula no planeta, e a ameaça de bloqueio por parte dos Estados Unidos não é, primariamente, uma agressão ao Irã. É uma mensagem de preço enviada a todos que dependem daquele corredor de água para acender a luz, mover a fábrica e abastecer o avião.
O Japão importa em torno de noventa por cento do seu petróleo do Oriente Médio. A Coreia do Sul, entre sessenta e setenta por cento. A Índia, que cresceu de forma acelerada nos últimos anos exatamente pela disponibilidade de energia barata, também passa por ali. Taiwan, cuja indústria de semicondutores o próprio Washington celebra como estratégica para a segurança americana, igualmente. Quer dizer, quando se monta a lista dos países imediatamente sufocados por um bloqueio em Ormuz, ela começa pelos aliados dos Estados Unidos, não pelos inimigos. A China aparece nessa lista também, mas com uma diferença que importa: ela tem rotas alternativas. Tem oleodutos russos. Tem acordos bilaterais de longo prazo. Tem, acima de tudo, anos de antecipação estratégica, construída exatamente porque sabia que esse dia podia chegar.
Acompanhe o dinheiro, que é sempre o melhor mapa. O gás natural liquefeito americano precisa de mercado comprador. Os produtores de xisto dos Estados Unidos extraíram mais do que nunca nos últimos anos e enfrentam o problema clássico de quem produz demais: o preço cede quando não há escassez. Um bloqueio em Ormuz, ou mesmo a sua ameaça persistente, cria escassez artificial imediata na Ásia. Coreia do Sul, Japão e Índia passam a disputar carregamentos no mercado spot a preços emergenciais. Quem tem GNL para vender? Os americanos. O Estado seca um lado e vende guarda-chuva no outro, e chamam isso de diplomacia.
Olha, a história é generosa em exemplos de impérios que confundiram força com inteligência. Napoleão decretou o Bloqueio Continental contra a Inglaterra em 1806 e conseguiu o prodígio de prejudicar mais a Europa continental, que dependia do comércio marítimo britânico, do que a própria ilha bloqueada. O mecanismo é sempre o mesmo: quando se interfere em redes de troca que se formaram organicamente ao longo de décadas, as consequências se distribuem de forma absolutamente ignorante das intenções originais. O petróleo não sabe para quem você estava mirando.
O que torna esta situação particularmente reveladora é que ela desnuda a contradição central da chamada ordem liberal do pós-guerra, essa arquitetura de alianças e instituições que os Estados Unidos construíram e da qual eram o principal fiador. A premissa era simples: rotas comerciais abertas beneficiam a todos, e quem garante as rotas colhe prestígio e influência. Fechar o Estreito de Ormuz é jogar essa premissa no lixo e substituí-la por outra: rotas comerciais são um ativo que pode ser monetizado quando conveniente. Não é uma posição errada do ponto de vista de quem busca poder bruto, mas é incompatível com o papel de guardião de uma ordem que você mesmo construiu. Você pode ser o policial ou o extorsionário, não os dois ao mesmo tempo por muito tempo.
A crise que se abre na Ásia não é conjuntural. Os países que dependem de Ormuz não têm como substituir aquele volume em semanas ou meses. Reservas estratégicas existem para emergências de curto prazo, não para bloqueios indefinidos. O que se vê, nos mercados, nas bolsas de Tóquio e Mumbai, na ansiedade dos governos de Seul e Taipé, é o custo concreto de confiar em um sistema que, afinal, pode ser desligado por decreto. Toda essa fragilidade, acumulada ao longo de décadas de dependência confortável, está sendo apresentada em uma única conta. E Washington está segurando a calculadora.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.