Vinte e um milhões de barris de petróleo atravessam o Estreito de Hormuz todos os dias. É uma faixa d'água de 33 quilômetros no ponto mais estreito, ladeada pelo Irã de um lado e por Omã do outro, e por ela passa a diferença entre luzes acesas e apagão industrial em boa parte da Ásia. Donald Trump anunciou o bloqueio desta passagem como manobra de pressão geopolítica, e a narrativa oficial é simples: fechar a torneira para punir Pequim. O que a narrativa não conta é que Japão, Coreia do Sul e Tailândia dependem deste corredor muito mais do que a China, que há anos vem diversificando suas rotas de abastecimento energético em direção à Rússia e à Ásia Central. Toda ação tem consequências visíveis e invisíveis, e aqui as invisíveis para Washington são exatamente os aliados que vão encolher debaixo do golpe.
Existe uma ilusão confortável no pensamento geopolítico americano de que o poder militar pode ser usado como bisturi, cortando o inimigo sem arranhar os amigos. A história não colabora com esta fantasia. Quando os Estados Unidos embargaram o Japão em 1941, cortando petróleo e aço, o resultado não foi a capitulação tranquila de Tóquio. Não se trata de fazer analogias precipitadas, mas de lembrar que países encurralados energeticamente não simplesmente dizem "tudo bem" e firmam tratados favoráveis. Eles tomam decisões desesperadas. A Ásia de 2026 é economicamente muito mais integrada do que a de 1941, e um choque energético desta magnitude não ficará contido nos spreadsheets dos analistas de Washington.
Siga o dinheiro. Quem ganha com petróleo a duzentos dólares o barril? Os produtores de shale americano, que por décadas reclamaram da concorrência do Oriente Médio, ganham margens que tornariam qualquer executivo da Aramco envergonhado. As empresas de GNL americano, que já exportam gás liquefeito para a Europa e a Ásia, veem seus contratos multiplicarem de valor. Os armadores que operam rotas alternativas pelo Cabo da Boa Esperança ficam com calendário de pedidos até 2030. Há um padrão aqui que nenhum comentarista de televisão vai mencionar: as políticas de "segurança nacional" americana raramente prejudicam os setores industriais que financiam campanhas políticas. Esta é uma regularidade histórica tão estável quanto a lei da gravidade, e merece ser tratada como tal.
O Japão importa 87% do seu petróleo do Oriente Médio. A Coreia do Sul, mais de 70%. Taiwan, que Washington prometeu defender militarmente contra a China, terá suas refinarias paralisadas muito antes de qualquer conflito militar chegar à ilha. Existe uma contradição estrutural em proteger a soberania de Taipé diplomaticamente enquanto se destrói sua base industrial por decreto. Uma economia industrializada sem energia não é uma democracia próspera que resiste à pressão chinesa; é um Estado falido que assina o que precisar para religar as luzes. O paradoxo é tão evidente que só pode ser ignorado por quem está deliberadamente olhando para outro lado.
A China, por sua vez, não é a vítima indefesa que os formuladores desta política imaginam. Pequim importa petróleo pelo Hormuz, sim, mas também possui contratos de longo prazo com a Rússia via oleodutos terrestres, acordos com Cazaquistão, Venezuela e Angola, e reservas estratégicas que estimativas independentes colocam entre 60 e 90 dias de consumo. Um bloqueio de Hormuz dói em Pequim como dói uma pedrada numa parede de concreto, enquanto dói nos aliados americanos como dói numa janela de vidro. A assimetria é real e calculável, e se os assessores do presidente não a calcularam, o problema é de competência; se calcularam e decidiram avançar assim mesmo, o problema é de outra natureza.
No fim, o que está em jogo aqui é a confusão entre força e poder. Força é a capacidade de fazer algo. Poder é a capacidade de fazer algo e colher o resultado desejado. Os Estados Unidos possuem força naval suficiente para paralisar Hormuz amanhã de manhã; o que não possuem é controle sobre as consequências desta paralisia, que se espalharão pelos mercados asiáticos, pelas cadeias de suprimento globais e pelas economias dos próprios aliados que Washington precisa manter na sua órbita para qualquer confronto sério com Pequim. Aprender a diferença entre força e poder costuma ser lição cara. Desta vez, a fatura parece ter sido enviada para o endereço errado.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.