Toda Copa do Mundo é precedida por um ritual antiquíssimo de manipulação do desejo, que tem menos a ver com futebol e muito mais com giro de estoque. As lojas estão abarrotadas de televisores que precisam sair, os anunciantes precisam justificar verbas, e o consumidor brasileiro, sempre disposto a confundir consumo com pertencimento, é convocado a cumprir seu papel cívico de financiar a cadeia produtiva asiática em nome da seleção canarinho. Repete-se ano após ano, década após década, e ninguém parece notar a engrenagem girando.
O fato técnico, que o varejo prefere esconder atrás de adjetivos brilhantes, é que a maioria das televisões fabricadas nos últimos sete anos exibe o sinal da Copa com qualidade absolutamente idêntica àquela que será exibida no aparelho recém comprado. A transmissão aberta no Brasil opera em 1080p, e mesmo nas plataformas de streaming, que prometem 4K, o gargalo está na compressão da imagem e na velocidade da sua banda larga, não no painel pendurado na parede da sala. Comprar 8K para assistir um sinal Full HD é o equivalente eletrônico a comprar uma Ferrari para enfrentar engarrafamento na Marginal Tietê.
Existe ainda o argumento da taxa de atualização, dos 120 hertz, do HDR, do Dolby Vision e de uma sopa de siglas que serve mais para impressionar o cunhado do que para melhorar a experiência. Cada uma dessas tecnologias tem seu nicho de utilidade real, principalmente para quem joga videogame de última geração ou consome cinema autoral em alta fidelidade. Para acompanhar vinte e dois sujeitos correndo atrás de uma bola, qualquer painel decente fabricado depois de 2018 entrega o resultado. Os engenheiros que projetam esses aparelhos sabem disso. O departamento de marketing finge que não.
Há também o capítulo das chamadas TVs inteligentes, que de inteligente têm pouco e de espionagem têm bastante. Cada modelo recente vem com microfone, câmera, sistema operacional proprietário e termo de uso que autoriza o fabricante a coletar absolutamente tudo o que você assiste, fala perto do aparelho e clica no controle remoto. Esses dados são vendidos para corretoras de informação, alimentam algoritmos publicitários e, em alguns casos, vão parar em servidores de jurisdições nada amigáveis. O cidadão paga caro pela tela e ainda entrega de bandeja sua intimidade. Negócio brilhante, para quem está do outro lado.
O conselho prático, que nenhum encarte de loja vai dar, é o seguinte. Se a televisão que está na sua sala tem mais de dez anos e a imagem já apresenta defeitos visíveis, troque, mas troque por necessidade real, não por marketing esportivo. Se o aparelho atual funciona bem, ignore o teatro do consumo, conecte um cabo decente, ajuste as configurações de imagem que vêm propositalmente erradas de fábrica para parecer que sua TV velha precisa ser substituída, e gaste o dinheiro economizado com a família, com livros, com qualquer coisa que ainda tenha alguma substância. A Copa passa em um mês. A prestação fica por dois anos.
Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.