A TWFG, corretora americana de capital aberto, anunciou a aquisição da APIA, casa especializada em seguros de programas e linhas específicas, e o detalhe que ninguém vai destacar é justamente o mais relevante: a operação aconteceu porque dois agentes privados acharam que faria sentido, calcularam risco, precificaram ativos e bateram o martelo. Nenhum conselho federal de seguros redesenhou o setor, nenhum decreto presidencial determinou a fusão, nenhum comitê tripartite com representantes do governo, dos sindicatos e da sociedade civil precisou ser convocado para validar a transação. Dois empresários, um contrato, um cheque. É exatamente esse mecanismo banal que move o mundo, e é exatamente esse mecanismo banal que o brasileiro médio esqueceu como se faz.

Repare na natureza do negócio. A APIA não é uma seguradora generalista; é especialista em programas, esses arranjos onde uma corretora desenha apólices customizadas para nichos que as seguradoras grandes nem enxergam. Caminhoneiros autônomos, condomínios industriais, transportadoras de carga refrigerada, profissionais liberais com responsabilidade civil específica. Quem descobre esses nichos? Não foi o regulador, garanto. Foi alguém que olhou para um pedaço da realidade econômica que ninguém estava atendendo e disse: aqui tem dinheiro a fazer e gente a proteger. O conhecimento de que esse nicho existe estava espalhado entre milhares de corretores na ponta, e nenhum planejador central jamais teria como agregá-lo. O preço de cada apólice especializada é a única tradução possível dessa montanha de informação dispersa.

Agora compare isso com o setor de seguros brasileiro. Aqui, qualquer movimento societário relevante passa pela Susep, que por sua vez responde a um ministério, que por sua vez responde a um Congresso onde os lobbies das grandes seguradoras escrevem boa parte da regulação que supostamente as fiscaliza. O resultado é previsível: cinco grupos dominam quase tudo, novos entrantes enfrentam uma muralha de exigências de capital e compliance que só os já estabelecidos conseguem cumprir, e o consumidor paga prêmios mais altos para ter menos opção. Chamam isso de mercado regulado. É um cartel com selo oficial. Sempre que o Estado promete proteger o consumidor das maldades do mercado, vale a pena perguntar quem efetivamente está sendo protegido, e a resposta nunca é o sujeito que paga o boleto.

Há uma lição mais profunda aqui sobre como riqueza se cria. A aquisição da APIA pela TWFG não produziu uma única apólice nova no minuto seguinte ao anúncio. Não somou um centavo de produto interno. O que ela fez foi reorganizar capital existente para que ele rende mais no futuro, porque a corretora compradora acredita que sob sua gestão a APIA produzirá mais valor do que produziria sozinha. Se acertou, todo mundo ganha: acionistas, funcionários realocados em estrutura mais eficiente, clientes com produtos melhores. Se errou, perde dinheiro próprio, e essa é a parte que distingue capitalismo de socialismo. Quando o empresário erra, ele sangra; quando o burocrata erra, sangra o contribuinte. Um aprende, o outro promove.

O que precisa ser entendido é que esse tipo de notícia, aparentemente trivial e perdida no caderno de negócios, é a verdadeira manchete da civilização ocidental. Não são as decisões grandiloquentes dos parlamentos, não são os pacotes anunciados em cadeia nacional, não são as reformas estruturantes que aparecem em pronunciamentos solenes. É a soma silenciosa de milhões de transações voluntárias entre adultos que sabem o que estão fazendo, cada uma carregando informação que nenhum gabinete jamais terá. Cada vez que um país substitui essa dinâmica por planejamento estatal, empobrece. Cada vez que protege essa dinâmica do apetite regulatório, prospera. Não há uma terceira via, por mais que vendedores de almoço grátis insistam em desenhá-la em PowerPoint.

Enquanto a TWFG faz negócio, aqui se discute se o aumento do IOF vai ou não ser revertido pelo Congresso, se a nova taxação de fundos exclusivos vai ou não fugir capital para o exterior, se o arcabouço fiscal vai ou não ser furado pela quinta vez no ano. O americano compra empresa; o brasileiro pede licença para respirar. Não é coincidência que um país produza Berkshire Hathaway e o outro produza CPI da Petrobras. Cada povo colhe a economia que sua filosofia política planta, e nós insistimos em plantar regulamento esperando colher prosperidade.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.