Vinte milhões de barris por dia. É isso que passa pelo Estreito de Hormuz, esse corredor de 33 quilômetros de largura que separa a civilização moderna do colapso energético. Um quarto de todo o petróleo comercializado no planeta, um quinto de todo o gás natural liquefeito, 84% disso com destino à Ásia. Amos Hochstein, que passou anos como conselheiro sênior de Biden para assuntos energéticos e agora opera pela TWG Global, foi ao evento da HSBC dizer o óbvio que ninguém em Davos ou Wall Street quer ouvir: o Irã não vai abrir mão desse controle. Ponto. Não por negociação, não por sanção, não por bloqueio naval. O Estreito é a última carta de um regime encurralado, e regimes encurralados não entregam a última carta.

Olha, o que aconteceu nos últimos dois meses é de uma gravidade que os analistas de banco tratam com a mesma solenidade de uma revisão trimestral de lucros. Em fevereiro, EUA e Israel lançaram ataques aéreos contra o Irã que mataram o líder supremo. O Irã retaliou com mísseis, drones e fez o que todo estrategista militar sabia que faria: fechou o Estreito. O Brent saltou 40%, passou dos 103 dólares o barril, a gasolina americana bateu 4,13 o galão, e o cessar-fogo temporário de duas semanas, costurado com cuspe e arame em Islamabad, fracassou no dia 12 de abril. No dia seguinte, os EUA impuseram um bloqueio naval sobre toda a costa iraniana, e a China, que depende daquele petróleo como um diabético depende de insulina, chamou o bloqueio de "ato perigoso e irresponsável". O cessar-fogo expira dia 21. Não há acordo à vista. Quatrocentos militares americanos já foram feridos. E os mercados, segundo Hochstein, estão subprecificando o impacto.

Quer dizer, subprecificando. Essa palavra merece ser mastigada devagar. Os mercados financeiros são máquinas extraordinárias para precificar risco, probabilidade, volatilidade. Mas existe uma diferença brutal entre risco e escassez física. Risco é quando o barril pode subir ou descer e você monta uma posição de acordo. Escassez física é quando o barril simplesmente não existe para ser comprado, a qualquer preço. É a diferença entre apostar na chuva e ficar sem água. Os modelos de risco dos fundos foram calibrados para um mundo em que o petróleo sempre flui, em que o Estreito sempre está aberto, em que guerras são precificadas como "eventos de cauda". Acontece que a cauda chegou, e ela tem mísseis balísticos.

Me diz uma coisa, quando foi que o Ocidente decidiu que podia manter um padrão de vida inteiro dependente de um corredor marítimo vigiado por teocratas com programa nuclear? A resposta é simples: foi quando os governos decidiram que energia era assunto de política, não de mercado. Décadas de regulação ambiental sufocante, de proibições a exploração doméstica, de subsídios bilionários a fontes que não funcionam à noite nem quando o vento para, de guerras regulatórias contra fracking e nuclear, produziram exatamente isto: uma civilização tecnológica de 8 bilhões de pessoas pendurada num estreito de 33 quilômetros. Cada vez que um burocrata em Washington, Bruxelas ou Brasília assinou uma regulação que encareceu a produção doméstica de energia, ele estava, na prática, transferindo poder de barganha para Teerã. Ninguém planejou isso, claro. Ninguém nunca planeja as consequências das próprias intervenções. Apenas sofre quando elas chegam.

E agora Trump aplica ao conflito militar a mesma lógica que aplica a disputas comerciais: tarifas de 50% sobre qualquer país que forneça armas ao Irã, como se o problema fosse de balança comercial e não de geopolítica energética. É o martelo que só conhece pregos. O Irã não é a China; não tem cadeia produtiva para perder nem classe média consumidora para pressionar o regime. O Irã tem petróleo, tem o Estreito e tem disposição para o martírio. O playbook de tarifas não funciona contra quem não joga o jogo do comércio, e a CNN, que raramente acerta alguma coisa, acertou ao apontar isso. Enquanto isso, os dois milhões de barris diários que o Irã exportava e que ajudavam a conter preços globais estão fora do mercado, e cada dia de bloqueio naval é um dia a mais de pressão inflacionária sobre cada economia do planeta.

O que Hochstein disse na HSBC não é previsão, é diagnóstico. O maior choque de oferta energética da história moderna está acontecendo agora, em tempo real, e a resposta coletiva do Ocidente é uma combinação de bloqueio naval, tarifas e negociações que já fracassaram. Ninguém quer admitir que o preço de décadas de política energética ideológica é este: um regime teocrático segurando o mundo pelo pescoço, e o mundo sem alternativa de curto prazo. Quando você terceiriza sua segurança energética para a geografia de um inimigo, não reclame quando o inimigo usa a geografia.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.