Olha, o enredo é antigo e sempre se repete com a mesma cara de pau. A Twin Vee PowerCats, fabricante de barcos que há anos não entrega retorno decente ao acionista, resolveu que a prioridade do momento era reajustar o salário base do seu vice-presidente para duzentos e cinquenta mil dólares anuais. Não foi o consumidor que pediu barcos melhores, não foi o acionista que exigiu dividendos, não foi o mercado que sinalizou que aquele executivo valia mais. Foi o próprio conselho, composto por gente que janta com o beneficiado, que decidiu, em nome de todos, premiar um dos seus.
Quer dizer, me diz uma coisa: numa empresa que queima caixa, que vive de emissão de ações diluindo o pequeno investidor, que reporta prejuízo trimestre após trimestre, qual é o critério objetivo que justifica um aumento desses? Se fosse uma padaria do bairro, o dono que aumentasse o próprio salário enquanto o negócio afunda seria chamado de irresponsável pela mulher na mesa do almoço. Mas quando o palco é o mercado de capitais americano, com seus rituais solenes de governança, o mesmo ato recebe o verniz de decisão estratégica para reter talento. Talento para quê, exatamente? Para continuar não entregando resultado?
Aqui entra a parte que ninguém quer enxergar, aquela que fica escondida atrás do comunicado oficial. Cada dólar que vai para o bolso do executivo é um dólar que não foi reinvestido no produto, não voltou ao acionista, não fortaleceu o balanço. É o que se vê contra o que não se vê: o salário visível num comunicado à SEC e os projetos invisíveis que morreram para bancar a regalia. E num país onde o Federal Reserve ainda insiste em manter dinheiro farto circulando, empresas zumbis como essa sobrevivem justamente porque o custo do capital foi artificialmente rebaixado por décadas de impressora ligada. Sem juros reais funcionando como filtro, o que deveria ter quebrado continua respirando, e quem paga a conta é o poupador que viu seu dinheiro derreter na inflação.
E siga a trilha do dinheiro que a história fica ainda mais interessante. Quem está no conselho que aprovou o pacote? Quem foram os consultores de remuneração contratados para produzir a planilha justificadora? Quem são os advogados que redigiram o contrato? É sempre o mesmo círculo, o mesmo clube, a mesma mão lavando a outra num arranjo que se protege mutuamente. O acionista minoritário, aquele sujeito que comprou cem ações achando que estava apostando num futuro da náutica americana, não tem assento, não tem voz, não tem voto que importe. Ele tem apenas o direito de assistir ao espetáculo e, no ano seguinte, receber mais uma oferta pública de ações para diluir ainda mais sua participação.
O escândalo, no fundo, nem é o valor em si. Duzentos e cinquenta mil dólares, no mercado americano, não é cifra de faraó. O escândalo é a cerimônia, a solenidade com que se comunica ao mundo uma transferência de riqueza do acionista para o executivo como se fosse decisão técnica baseada em benchmark setorial. É a linguagem corporativa anestesiando aquilo que, dito em português claro, seria visto como o que é: um grupo pequeno decidindo o próprio salário com o dinheiro dos outros. A governança moderna inventou mil rituais para fazer o óbvio parecer complexo, e o complexo parecer inevitável.
No final, o que fica é a lição que se repete desde que existe sociedade anônima: quando não há proprietário com pele no jogo vigiando o cofre, o cofre vira self-service. O capitalismo de verdade, aquele em que o dono responde com o próprio patrimônio, jamais premiaria o fracasso com aumento. O capitalismo de compadrio, esse sim, transforma conselho em sindicato de executivos e relatório trimestral em carta de Papai Noel. A diferença entre os dois sistemas não está no nome, está em quem manda na assembleia, e hoje quem manda raramente é quem pagou pela cadeira.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.