O presidente da ADNOC veio a público confessar, sem o pudor diplomático de praxe, que a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP destravou a capacidade do país de acelerar investimentos e expandir produção. Quer dizer, durante décadas nos venderam a ideia de que o cartel existia para "garantir estabilidade", "evitar volatilidade" e outras eufemismos de manual de relações públicas, e bastou um dos maiores produtores bater a porta para o chefe da estatal admitir que, livre das cotas, finalmente pode fazer o que qualquer empresa séria faz: produzir mais, vender mais, lucrar mais. O rei estava nu o tempo todo, e foi um xeque árabe quem apontou.
Olha, todo cartel é um conluio para restringir oferta e empurrar preço artificialmente para cima às custas do consumidor. Não existe versão simpática disso. Quando empresas privadas se juntam para combinar preços, chamamos de crime contra a ordem econômica e mandamos o CADE em cima. Quando Estados fazem a mesma coisa com petróleo, chamamos de "geopolítica energética" e tratamos os ministros como estadistas. A diferença é só o tamanho da gravata. O resultado é idêntico: o motorista paga mais caro no posto, o industrial paga mais caro no insumo, o pobre paga mais caro em tudo que depende de transporte, ou seja, em tudo.
E é aqui que vale seguir o dinheiro, porque a coisa fica deliciosa. A OPEP nunca foi sobre eficiência, nunca foi sobre estabilidade, nunca foi sobre "responsabilidade com as gerações futuras". Foi sempre sobre proteger membros menos competitivos, com poços mais caros, infraestrutura mais frágil e regimes mais frouxos, das consequências naturais de sua ineficiência. Quem produz barato e tem reserva farta, como os Emirados, subsidia indiretamente quem produz caro e mal. É o velho esquema do clube em que o sócio rico banca o sócio incompetente, com o detalhe pitoresco de que a conta inteira é repassada a quem nunca foi convidado para a festa: você, no momento em que abastece o carro.
A confissão emiradense também escancara uma verdade que economistas de banco fingem não ver: preço fixado por comitê é sempre pior que preço descoberto pelo mercado. Quando um grupo de burocratas em Viena decide quanto barril o mundo vai produzir no próximo trimestre, está chutando no escuro com o dinheiro alheio, sem conhecer a demanda real, sem antecipar a inovação tecnológica, sem ter o menor incentivo para acertar. O sinal de preço, esse mecanismo prodigioso que coordena a ação de bilhões de pessoas sem que ninguém precise mandar em ninguém, é substituído por uma planilha negociada entre regimes que não prestam contas a ninguém. O resultado é o que se vê: ciclos brutais de boom e bust, choques de oferta artificiais, crises de energia fabricadas em sala fechada.
Há também a lição maior, que vai além do petróleo. Toda vez que um país, uma empresa ou um indivíduo se liberta de um arranjo coletivo coercitivo, descobre, surpreso, que sempre teve mais capacidade do que o arranjo lhe permitia exercer. O cartel, o sindicato político, o bloco regulatório, o pacto setorial, todos vendem proteção e entregam camisa de força. Os Emirados acabam de provar empiricamente o que deveria ser óbvio: quem produz bem não precisa de cartel, e quem precisa de cartel é porque não produz bem. A pergunta interessante agora é quanto tempo até o próximo membro fazer as contas, perceber que está bancando os primos pobres, e ir embora também.
Para o Brasil, que insiste em transformar a Petrobras em instrumento de política de preço travada por canetada presidencial, fica o recado pelo qual ninguém pediu mas todos precisam ouvir: mercado livre de energia não é luxo ideológico, é condição material para um país crescer. Enquanto a Esplanada continuar tratando o barril como variável eleitoral e a estatal como caixa de campanha, vamos seguir importando inflação, exportando empregos e batendo palmas para reservas que jamais viram riqueza. Os Emirados saíram do clube e abriram a torneira. Nós entramos no clube errado, fechamos a torneira, e ainda agradecemos pelo aperto.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.