A United Auto Workers marcou para a próxima semana a votação que pode autorizar uma greve numa unidade da Stellantis em Michigan, e quem acompanha esse setor há mais de duas décadas já sabe como o filme termina. O sindicato grita, a montadora recua, o acordo vem com aumento salarial nominal generoso, e dois anos depois descobrimos que mais uma linha de produção foi transferida para o México, para o Tennessee não sindicalizado, ou simplesmente automatizada com robôs que não pagam mensalidade sindical. O operário de Detroit aplaude a vitória de hoje sem perceber que está aplaudindo o próprio enterro programado para depois de amanhã.

Há um detalhe que os boletins econômicos costumam esconder por preguiça analítica. A Stellantis não é uma empresa americana romântica brigando com seus heróicos trabalhadores, é uma multinacional ítalo-franco-americana cujos executivos têm calculadora na mão e planilha de custos por hora aberta em quatro continentes simultaneamente. Cada centavo a mais na hora trabalhada em Michigan é um argumento adicional para que a próxima fábrica nasça em Toluca, em Kragujevac ou em qualquer lugar onde o salário seja metade e a lei trabalhista não trate empresário como criminoso em liberdade condicional. O sindicato acha que está negociando aumento, está na verdade negociando a velocidade da própria extinção.

A história americana já contou esse capítulo várias vezes, e ninguém aprendeu. Detroit, em 1950, era a quarta cidade mais rica dos Estados Unidos, polo industrial invejado pelo mundo, com sindicatos fortes e salários que faziam europeus emigrarem. Detroit, hoje, é um cemitério urbano com bairros inteiros sendo retomados pelo mato, casas vendidas por mil dólares, e uma população que despencou de quase dois milhões para menos de seiscentos mil. O que aconteceu entre uma data e outra? Aconteceu o sindicalismo combativo achando que podia desafiar permanentemente a lei da oferta e da procura, e aconteceu o capital descobrindo que aviões e contêineres atravessam fronteiras com mais facilidade do que delegados sindicais.

Siga o dinheiro e o quadro fica nítido. A liderança da UAW vive de mensalidade compulsória descontada em folha, e mensalidade só entra enquanto houver operário empregado. O incentivo do dirigente sindical não é preservar empregos no longo prazo, é arrancar manchete no curto prazo, porque manchete reelege, preserva mordomia, financia campanha política e garante o assento no conselho de pensão que movimenta bilhões. O operário de chão de fábrica é peão num jogo de xadrez onde as peças brancas se chamam diretoria sindical e as peças pretas se chamam diretoria corporativa, e ambos os lados ganham quando há conflito ritualizado a cada negociação coletiva.

Há também o personagem invisível dessa peça, que é o consumidor americano médio. Cada dólar de aumento concedido sob ameaça de greve não sai do bolso do CEO de Amsterdam, sai embutido no preço da picape Ram que o pedreiro do Texas vai financiar em sete anos, com juros de quase nove por cento ao ano. O custo da paralisação na fábrica de Michigan é pago em Atlanta, em Phoenix, em Miami, por gente que nunca pisou numa assembleia sindical e que provavelmente nem sabe quem é a Stellantis. Esta é a beleza dos arranjos corporativistas modernos, o custo é socializado entre milhões de anônimos, e o ganho é privatizado entre algumas centenas de privilegiados de ambos os lados da mesa de negociação.

O que vai acontecer na próxima semana é teatro previsível com figurino caro. Vão votar a greve, vão fazer barulho, vão posar para fotos com cartazes, e a Stellantis vai aparecer com uma proposta marginalmente melhor do que a anterior para que todos saiam dizendo que venceram. Enquanto isso, no escritório da matriz, alguém continuará desenhando o organograma da próxima planta na América Latina, onde a mão de obra ainda é gente fazendo coisa, e não personagem ensaiando para o próximo ato do mesmo espetáculo cansado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.