A notícia vem embrulhada no papel celofane de sempre, "movimento estratégico", "realinhamento de portfólio", "consolidação do setor", e o leitor distraído engole. Mas olha, quando a Uber saca €270 milhões para aumentar sua fatia na Delivery Hero, comprando justamente da Prosus, que era a maior acionista europeia do negócio, o que está acontecendo não é concorrência, é o oposto dela. É dois rivais aparentes fazendo as pazes no andar de cima enquanto fingem brigar no andar de baixo. E o regulador europeu, esse guardião solene da livre concorrência, vai olhar para o teto assobiando, como sempre faz quando o cheque é grande o bastante.

Me diz uma coisa, desde quando comprar participação minoritária relevante no principal concorrente é considerado comportamento competitivo? Na cabeça da economia de faculdade, empresas rivais deveriam estar se canibalizando em guerra de preços, inovando feito loucas, cortando margem para conquistar mercado. Mas no mundo real, o que se vê é exatamente o contrário: rivais descobrindo que é muito mais lucrativo dividir o território do que disputá-lo. A Uber já tem presença global, a Delivery Hero domina partes da Europa, Ásia e Oriente Médio, e agora as duas passam a ter incentivos alinhados. Traduzindo do corporativês: preço sobe, taxa do entregador cai, comissão do restaurante aperta, e o consumidor descobre que "conveniência" tem preço de monopólio.

E a Prosus? Ah, a Prosus está fazendo o movimento clássico do investidor esperto que identifica o topo do ciclo. Colocou o dinheiro lá atrás quando entrega de comida era a nova febre pós-pandemia, viu o múltiplo inflar no oba-oba das techs subsidiadas por juros zero, e agora realiza lucro enquanto pode. Siga o dinheiro: quem está saindo é quem sabe que a festa está terminando, e quem está entrando é quem precisa acumular poder de mercado porque o modelo de crescimento orgânico já não entrega retorno. Isso não é sinal de pujança, é sinal de maturidade amarga do setor, aquele momento em que as empresas param de competir por clientes e passam a competir por fatia da mesa do jantar.

O detalhe que quase ninguém comenta é que todo esse arranjo só existe porque, durante uma década, bancos centrais do mundo inteiro jogaram juro no chão e inundaram o mercado de capital barato. Foi esse dinheiro artificialmente fácil que criou um modelo de negócio onde entregar um hambúrguer de vinte reais custava trinta reais e a diferença era paga pelo investidor de fundo de pensão americano, na esperança de que um dia, quando os rivais tivessem sido todos queimados no caixa, o sobrevivente poderia cobrar o que bem entendesse. Pois bem, chegamos no "um dia". Os rivais estão se fundindo em vez de se queimando, e o sobrevivente será um cartel de dois ou três nomes. Exatamente o que o manual prometia que o livre mercado jamais produziria.

Há ainda o aspecto que os entusiastas da "economia de plataforma" preferem esquecer: o entregador. Aquele sujeito de mochila quadrada que pedala dez horas por dia sem carteira assinada, sem FGTS, sem seguro, classificado como "parceiro autônomo" num eufemismo jurídico que faria corar qualquer advogado honesto. Com menos concorrência entre as plataformas, a margem de negociação desse trabalhador, que já era ridícula, vai para o negativo. Ele não pode migrar para o concorrente porque o concorrente agora é sócio do patrão. É o capitalismo de compadrio em sua forma digital mais refinada, vendido como disrupção e progresso, quando na prática reproduz exatamente a mesma lógica das velhas corporações de ofício medievais: poucos donos, muitos servos, preços combinados no fundo da sala.

O que se vê nessa transação é o cheque de €270 milhões. O que não se vê é o consumidor europeu pagando 15% a mais na taxa de entrega daqui a dois anos, o restaurante familiar engolindo comissão de 30% porque não tem alternativa, e o entregador recebendo menos por corrida enquanto o algoritmo aperta a produtividade. Chamar isso de mercado livre é desonestidade semântica; é capitalismo de plataforma subsidiado por juro artificial que agora deságua, inevitavelmente, na concentração oligopolista que o próprio juro artificial tornou possível. A consolidação não é sintoma de um mercado eficiente, é sintoma de um mercado que passou uma década ignorando o preço real do capital, e agora colhe o fruto natural dessa distorção: menos escolha, menos competição, menos liberdade. O consumidor aplaude a conveniência do app e assina, sem ler, o contrato de sua própria dependência.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.