A notícia chega embalada em terno cinza e sorriso institucional, dessas que a Bloomberg adora vender como se fosse só mais um update corporativo. O UBS, o maior gestor de fortunas do planeta, anuncia pela boca de sua chefe na Ásia que segue contratando em Hong Kong e arredores porque o tal "momentum" permanece. Quem ouve distraído pensa tratar-se de novidade de RH. Quem entende de capital sabe que é geopolítica fantasiada de release de banco.
Convém lembrar o óbvio que ninguém mais quer enxergar. Capital não tem pátria, capital tem coluna vertebral. Ele foge de onde o cercam, taxam e moralizam, e procura abrigo onde existe previsibilidade jurídica, baixa tributação e respeito mínimo à propriedade. Hong Kong, mesmo depois da rédea curta de Pequim, ainda oferece ao milionário asiático algo que Londres, Bruxelas e Nova York vêm tornando artigo de luxo, a chance de fazer dinheiro sem pedir licença a um burocrata com complexo de pastor protestante.
Siga o dinheiro e a história fica clara. O patrimônio gerido nas grandes praças ocidentais cresce no ritmo de quem está dopado pela impressora de moeda, enquanto na Ásia ele se multiplica pela via antiga e chata, produção, poupança, investimento. O UBS não está contratando em Hong Kong por filantropia. Está contratando porque é lá que o cliente novo aparece, o empresário que efetivamente fabrica algo, o herdeiro asiático que entende que welfare europeu se paga com confisco silencioso, o family office que cansou da gincana regulatória americana e do moralismo ESG que decide o que pode e o que não pode existir.
Há um detalhe delicioso que escapa aos comentaristas de paletó. Enquanto o eleitor ocidental médio é convencido de que a saída para a crise é mais imposto, mais regulação e mais redistribuição, o gestor de fortunas do mesmo Ocidente vota com os pés e move escritórios, equipes e mesas de operação para a outra ponta do mapa. Os que pregam justiça social no microfone mandam o próprio dinheiro para onde a justiça social é palavrão. É a velha história, o socialismo é sempre para os outros, de preferência financiado pela classe média que ainda não percebeu que está sendo ordenhada.
O Brasil, claro, assiste a tudo isso com a sofisticação econômica de quem ainda discute se o problema do país é a Faria Lima ou o ministro do Supremo da semana. Enquanto Hong Kong contrata gestores para administrar fortunas reais, aqui se contrata consultor para explicar por que o arcabouço fiscal vai funcionar dessa vez. Não vai. Capital olha o gráfico, não o discurso. E o gráfico brasileiro, com juro alto, gasto explosivo e insegurança jurídica de república bananeira, é exatamente o tipo de gráfico do qual o UBS está fugindo na Europa para se instalar na Ásia.
A lição é simples e indigesta. Quando o banco mais conservador do planeta, fundado por suíços que inventaram o conceito moderno de cofre, decide que o futuro do dinheiro está em Hong Kong e não em Zurique, Frankfurt ou Manhattan, alguma coisa muito séria está sendo dita sem ser dita. O Ocidente está perdendo o capital pela mesma razão pela qual a Argentina perdeu, porque transformou produzir em pecado e redistribuir em virtude. O dinheiro escuta tudo, não responde nada, e simplesmente vai embora.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.