A notícia parece corriqueira, dessas que passam batido no terminal Bloomberg entre um café e outro: o UBS reiterou recomendação de compra para as ações da Five Below, varejista americana especializada em vender quinquilharia por menos de cinco dólares, citando "motores de crescimento" robustos. Olha, parece banal, mas tem mais economia política nesse parágrafo do que em três discursos do Federal Reserve. Porque enquanto o establishment monetário americano passou os últimos três anos jurando que o consumidor estava resiliente, depois fragilizado, depois resiliente de novo conforme a conveniência narrativa do mês, uma rede que vende bugiganga de um dólar continua expandindo loja e o analista de banco suíço bate palma.
O que ninguém quer dizer em voz alta é o seguinte: a Five Below cresce porque a classe média americana empobreceu o suficiente para que pagar cinco dólares numa caneca pareça vantagem. Esse é o ponto que não cabe no relatório do UBS, que precisa vender a tese da "expansão de margem" e do "ganho de tráfego" sem mencionar a causa real, que é o efeito acumulado de uma década de expansão monetária irresponsável, estímulos fiscais delirantes durante a pandemia e uma inflação que comeu o poder de compra do americano médio enquanto Wall Street brindava com champanhe. O dinheiro impresso não some, ele migra. E migrou da poupança do trabalhador para o balanço de varejista de produto barato.
Tem ainda a engenharia financeira por trás do otimismo. Quando um banco grande recomenda compra, vale sempre perguntar quem está sentado do outro lado da mesa, quem subscreve as emissões, quem gerencia a folha de pagamentos da empresa coberta, quem ganha taxa de assessoria em fusões eventuais. Não estou dizendo que o relatório é fraudulento, estou dizendo que recomendação de banco de investimento sobre empresa que ele cobre tem tanto de análise independente quanto cardápio de restaurante tem de crítica gastronômica. A regra antiga continua valendo: siga o dinheiro e descubra a tese de verdade.
Há também o detalhe quase poético de uma sociedade que mediu seu progresso pelo iPhone novo agora celebrar a expansão da loja que vende o suporte de plástico do iPhone usado. Isso é o que se chama de prosperidade invertida, aquela em que o termômetro do crescimento aponta para baixo e os economistas oficiais insistem em ler de cabeça para baixo para que apareça subindo. Quando o consumidor troca o varejo tradicional pelo varejo de desconto extremo, não é vitória do modelo de negócio, é capitulação do orçamento doméstico. A diferença é sutil, mas decisiva, e nenhum modelo de fluxo de caixa descontado captura isso.
O mais cínico de tudo é que, no curto prazo, a tese do UBS provavelmente está correta. A ação deve subir, a empresa deve abrir mais lojas, o consumidor empobrecido deve continuar comprando lá porque não tem para onde ir. O capitalismo encontra mercado até no funeral, especialmente no funeral. O que essa cadeia de causa e efeito revela é o verdadeiro retrato do que o intervencionismo monetário produz quando atravessa uma geração inteira: não pobreza absoluta visível, que seria politicamente intolerável, mas um rebaixamento silencioso de padrão de vida disfarçado de eficiência de varejo. A bugiganga não substitui a prosperidade, ela apenas a fantasia.
Quem comprar Five Below hoje provavelmente vai ganhar dinheiro, e isso diz mais sobre o estado da União do que qualquer discurso presidencial dirá nos próximos dois anos. A frase que fica é simples: quando o termômetro da economia é uma loja de cinco dólares lotada, o doente não está com gripe, está com pneumonia, e o médico oficial continua recomendando aspirina.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.