A notícia é que a União Europeia, depois de um quarto de século enrolando, fingindo, recuando, vetando soja, vetando carne, inventando barreira sanitária, exigindo selo verde, ameaçando com taxa de carbono, finalmente resolveu colocar em marcha o acordo com o Mercosul. E por que justo agora, depois de tanta lenga-lenga? Simples. Washington fechou a torneira, subiu tarifa em cima de aço, alumínio, automóvel europeu, e os burocratas de Bruxelas, que viviam tratando o agricultor brasileiro como ameaça civilizacional, descobriram de repente que o churrasco do Sul está mais barato que o subsídio do Norte. Quer dizer, o livre comércio sempre foi maravilhoso quando convinha; virou urgência geopolítica quando começou a doer no bolso.

Olha, vamos chamar a coisa pelo nome. Isso não é abertura de mercado, é triangulação de sobrevivência. A Alemanha não consegue mais vender carro com a mesma folga, a indústria francesa está apanhando da concorrência asiática, e o consumidor europeu, que paga o salgado da Política Agrícola Comum há gerações, começou a perceber que aquele queijo subsidiado está custando o equivalente a uma hipoteca. Quando o protecionismo americano apertou, o protecionismo europeu rachou. E o que sai pela rachadura é o reconhecimento envergonhado de que comércio com a América do Sul, aquele mesmo que eles passaram décadas sabotando, agora vira plano B emergencial.

Me diz uma coisa: alguém por aí ainda acredita que existe livre comércio nesse acordo? Leia as cláusulas. São centenas de páginas de exceção, de cota, de gatilho, de salvaguarda, de mecanismo de revisão, de capítulo ambiental que funciona como cavalo de Troia regulatório. O agricultor francês continua intocável, o produtor brasileiro continua sob suspeita permanente de desmatar, e o burocrata em Bruxelas mantém o poder de vetar embarque inteiro com base em metadado de satélite. Isso não é mercado, é cartório. É o velho truque de assinar tratado com a mão direita enquanto a mão esquerda escreve o regulamento que esvazia o tratado.

E siga o dinheiro, que é onde a história sempre se conta inteira. Quem ganha com o acordo desbloqueado neste timing específico? A indústria automotiva alemã, que precisa desesperadamente de mercado consumidor depois de perder espaço para chinês e americano. A química europeia, que quer despejar manufaturado pesado num continente que se desindustrializou justamente porque assinou tratado anterior em condição idêntica. Quem paga? O contribuinte sul-americano, que financia infraestrutura para exportar commodity barata, e o pequeno industrial daqui, que vai concorrer com produto subsidiado lá. O sujeito que produz parafuso em Joinville já pode ir treinando para virar entregador de aplicativo.

O mais cômico é o tom moralista da imprensa europeia, que vende o acerto como ato de heroísmo civilizacional contra o autoritarismo tarifário americano. Quer dizer, quando os Estados Unidos taxam, é barbárie; quando a União Europeia taxou agricultura sul-americana por vinte e cinco anos seguidos, era proteção ambiental, defesa do produtor familiar, padrão sanitário elevado. A hipocrisia tem CEP, e nesse caso o CEP é Bruxelas. O acordo só anda porque a alternativa era ver a economia europeia derreter mais rápido que sorvete em julho, e nem assim conseguem assinar sem amarrar o sul-americano em cinquenta nós regulatórios.

A lição que ninguém quer aprender é antiga e custa caro toda vez que ignoram. Tratado comercial só serve quando reduz barreira dos dois lados de verdade, quando preço se forma livre, quando o consumidor decide sem o governo escolhendo por ele. Tudo o mais é mercantilismo travestido, é elite exportadora vestida de liberal pedindo subsídio com sotaque de livre mercado. Bruxelas não descobriu o Mercosul; Bruxelas descobriu que estava sozinha quando a roda começou a girar contra. E quando o desespero diplomático vira pauta de jornal econômico como se fosse vitória, o leitor atento sabe que está vendo um cadáver bem maquiado pedindo última dança.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.