O Handelsblatt soltou a manchete e meia Europa fingiu surpresa: Bruxelas estuda multar o Google em centenas de milhões de euros por supostas práticas anticoncorrenciais no mercado de publicidade digital. A cena já é tão repetida que dá para recitar o roteiro de cor. Comissão Europeia abre processo, vaza a cifra para um jornal amigo, espera a opinião pública aplaudir, e ao final embolsa o cheque. O que ninguém pergunta é onde, exatamente, esse dinheiro vai parar, e que tipo de concorrência foi protegida quando a multa é paga não por um cartel de produtores europeus, mas por um competidor americano que ousou ser bom demais no que faz.

A retórica oficial é sempre a mesma: protege-se o consumidor, garante-se a concorrência leal, defende-se o pequeno empresário europeu sufocado pelo gigante. Olha, basta ler o histórico dessas multas para perceber o truque. O consumidor europeu não pediu nada. Ele usa o Google porque quer, gratuitamente, porque o serviço funciona. O pequeno empresário europeu, esse sim, sofre, mas não pelo Google, e sim pelo emaranhado regulatório, fiscal e trabalhista que Bruxelas mesma criou e que torna impossível qualquer startup do continente competir com americanos ou chineses. A multa não devolve um euro ao bolso de quem clicou em anúncio, não cria um único concorrente europeu, e não muda o fato de que a Europa, em vinte anos, não produziu uma única plataforma digital relevante.

Siga o dinheiro e a fantasia desaba. Multa cobrada por Bruxelas vira receita do orçamento da União Europeia, ou seja, vai engordar a mesma burocracia que regulamenta, tributa e infantiliza o continente do berço ao caixão. Não vai para o consumidor lesado, porque não há consumidor lesado identificável. Não vai para o concorrente prejudicado, porque o concorrente prejudicado, no fundo, é o burocrata que perdeu o controle sobre uma indústria que cresceu sem pedir licença a ele. A multa é, portanto, um imposto disfarçado de justiça, cobrado de uma empresa estrangeira porque cobrar do eleitor europeu daria voto contra na próxima eleição.

Há ainda o detalhe sutil que ninguém quer dizer em voz alta. Esse tipo de ofensiva regulatória contra big techs americanas funciona como reserva de mercado às avessas. Não se cria campeão europeu, mas se enfraquece o estrangeiro o suficiente para que a próxima rodada de subsídios a alguma iniciativa europeia, sempre patética, sempre cara, sempre fracassada, pareça menos ridícula em comparação. É o velho mercantilismo de sempre, agora vestido de roupa verde e progressista, com selo de proteção de dados e discurso de soberania digital. O resultado prático é que o europeu continua usando Google, agora um pouco pior, um pouco mais lento, um pouco mais censurado, e paga por isso na forma de inovação que não acontece, de serviços que não existem e de empregos que migraram para o Vale do Silício.

E quando alguém ousar dizer que o consumidor não foi consultado, que o mercado funcionava bem, que ninguém estava sendo enganado, virá o coro indignado dos comissários e dos colunistas de Bruxelas explicando que o povo não sabe o que é melhor para si. Esse é o despotismo mais perfeito já inventado: aquele que oprime em nome do bem da vítima, que nunca para, porque a consciência do opressor o aprova. A multa contra o Google não é um ato de justiça. É um ritual. Um ritual no qual a burocracia europeia reafirma a si mesma sua razão de existir, financiada pelo dinheiro de quem ousou prosperar fora da sua tutela.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.