A notícia chega com aquela solenidade tragicômica que só Bruxelas consegue produzir. Depois de anos sufocando qualquer iniciativa privada continental sob camadas de diretivas, compliance e selos verdes, a Comissão Europeia descobriu, alarmada, que os europeus dependem de americanos e chineses para praticamente tudo que envolve um chip, um servidor ou uma linha de código. A resposta? Um pacote de leis para "reduzir a dependência". Quer dizer, o mesmo aparato burocrático que matou a inovação local agora promete ressuscitá-la por decreto. É como pedir ao incendiário que organize o resgate dos sobreviventes.
Olha, ninguém precisa ser economista de Chicago para entender o que aconteceu. Enquanto o Vale do Silício queimava capital de risco em mil experimentos malucos e Shenzhen montava fábricas em meses, a Europa discutia se o cookie do site de receitas precisava de três cliques ou quatro para ser aceito. Cada empreendedor sério que tentou erguer uma plataforma de tecnologia no velho continente foi recebido por uma muralha de GDPR, AI Act, Digital Services Act, Digital Markets Act e mais um alfabeto inteiro de siglas concebidas por gente que nunca escreveu uma linha de código na vida. O resultado está aí, escancarado, e agora vão consertar com, adivinhe, mais sigla.
Me diz uma coisa, qual foi a última grande empresa de tecnologia nascida na Europa? A resposta é constrangedora. Spotify, e olhe lá. Enquanto isso, o dinheiro do contribuinte europeu financia "campeões digitais" criados em PowerPoint, consórcios subsidiados que somem três anos depois e fundos de inovação que terminam sempre nos mesmos bolsos, geralmente de empresas alemãs ou francesas amigas do poder. Siga o dinheiro e você encontrará a velha receita do capitalismo de compadrio vestido de soberania tecnológica. Não é independência, é reserva de mercado para os apadrinhados de sempre.
O ponto cego dessa história é que dependência tecnológica não se resolve com proibição, se resolve com produtividade, e produtividade não brota de regulamento. Brota de gente livre para arriscar capital próprio sem medo de ser processada por uma frase mal interpretada num termo de uso. Os americanos ganharam essa corrida porque deixaram seus malucos serem malucos. Os chineses ganharam porque o Estado deles, ainda que tirânico, pelo menos sabe distinguir entre infraestrutura estratégica e curvatura de banana. A Europa quis fazer as duas coisas ao mesmo tempo: ter a inovação americana e o controle chinês. Ficou sem nenhum dos dois.
Há algo de profundamente revelador em ver a elite tecnocrática europeia fingir surpresa diante de um desfecho que ela mesma engendrou parágrafo por parágrafo. É o tipo de cegueira que só atinge quem está confortável demais no próprio sistema para enxergar que o sistema é o problema. Quando o burocrata anuncia que vai "garantir soberania digital", traduza: vai gastar bilhões de euros para criar uma versão pior e mais cara do que o mercado livre já entrega de graça, e ainda vai cobrar imposto pelo desserviço. É a janela quebrada elevada à doutrina de Estado.
No fim das contas, a velha lição volta a bater na porta de Bruxelas com a paciência de um cobrador antigo. Não existe atalho legislativo para a riqueza, não existe decreto que substitua o engenho humano operando em liberdade, e não existe almoço grátis quando o cardápio foi escrito por quem nunca cozinhou. A Europa vai aprender isso de novo, agora pagando mais caro, e provavelmente vai concluir que precisa de uma nova diretiva para evitar que aprenda da próxima vez.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.