A UFP Industries acaba de reportar queda no lucro do primeiro trimestre com aquela frase que os relatórios corporativos adoram usar para esconder o óbvio, fraqueza generalizada na demanda. Traduzindo do dialeto evasivo das teleconferências para o português dos mortais, ninguém está comprando madeira porque ninguém está construindo, reformando ou expandindo nada. E ninguém está construindo porque o crédito que sustentou a festa da última década evaporou no momento em que os juros subiram para conter a inflação que o próprio governo americano fabricou imprimindo trilhões durante a pandemia.
Olha, a história aqui é antiga e se repete com a previsibilidade de relógio suíço. Banco central derrama dinheiro barato no sistema, empresários enxergam projetos que pareciam inviáveis ficarem mágicamente lucrativos no Excel, fábricas se expandem, serrarias contratam, fornecedores investem em capacidade nova, e todo mundo confunde a euforia com prosperidade real. Quando a impressora desacelera e os juros voltam a algo parecido com a realidade, a estrutura inteira range. As empresas que apostaram que a demanda artificial era permanente descobrem, com surpresa quase cômica, que era artificial mesmo.
O detalhe delicioso é que a UFP não é uma empresinha mal administrada de fundo de quintal. É um colosso bilionário com décadas de operação, executivos competentes e gestão profissional. Se eles estão sofrendo é porque o problema não está na empresa, está no ambiente que os planejadores monetários moldaram. Quando você distorce o sinal mais importante de uma economia, que é a taxa de juros, você condena todos os atores produtivos a tomarem decisões erradas baseadas em informações falsas. Depois culpam o mercado pela ressaca da bebedeira que o próprio Estado serviu.
Siga o dinheiro e você verá o roteiro completo. Os bancos que receberam liquidez do Fed emprestaram para incorporadoras, que tomaram terreno e contrataram empreiteiras, que compraram madeira da UFP, que contratou trabalhadores e investiu em capacidade. Todo esse capital foi alocado com base num cálculo que pressupunha juros próximos de zero para sempre. Agora que a conta chegou, quem fica com o prejuízo? Não os burocratas que decidiram a política monetária, esses continuam recebendo seus salários públicos com aumento anual. Ficam os acionistas, os trabalhadores demitidos e os fornecedores menores que quebram silenciosamente sem virar manchete.
E enquanto isso a imprensa econômica vai tratar o resultado como se fosse um fenômeno meteorológico, algo que aconteceu, sem causa, sem culpado, sem narrativa. Vão falar em "ciclo natural", em "ajuste de mercado", em "cenário macro desafiador", todos esses eufemismos que servem para uma coisa só, blindar o verdadeiro responsável. Não existe ciclo natural quando o Banco Central decide arbitrariamente o preço do dinheiro. Existe ciclo manufaturado, fabricado em comitê, com hora marcada e vítimas previsíveis.
O que se vê é a queda do lucro da UFP. O que não se vê são os milhares de pequenas serrarias, marcenarias, transportadoras e empresas familiares que dependem dessa cadeia e que estão fechando as portas sem direito a press release. Não se vê o trabalhador que não será contratado, a casa que não será construída, o investimento que ficou na gaveta. A próxima crise já está sendo gestada nos mesmos gabinetes onde gestaram esta, e o próximo balanço decepcionante de alguma outra empresa será novamente apresentado como mistério insondável da economia. Insondável só para quem se recusa a olhar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.