O Reino Unido acorda nesta semana com a ressaca de quem bebeu demais na festa dos outros. A Bloomberg confirma o que qualquer observador honesto já via há meses, a economia britânica leva cicatrizes profundas e a relação de Londres com Washington está rachada, mesmo com o risco de guerra recuando no horizonte. Traduzindo do diplomatês, a City torrou bilhões sustentando uma política externa que não era sua, alienou parceiros comerciais que eram, e no fim ficou com o pior de dois mundos, empobrecida e desprestigiada. Quem avisou foi chamado de isolacionista. Os avisados estão agora comprando gás caro e vendo a indústria encolher.
Olha, a mecânica do estrago não é misteriosa. Quando um governo decide que vai financiar guerra alheia com dinheiro que não tem, ele imprime, endivida ou confisca via tributo, e geralmente faz os três ao mesmo tempo. Cada libra desviada para o front é uma libra que não foi para a fábrica em Birmingham, para o pequeno empresário em Manchester, para o aposentado que vê o preço do pão subir enquanto ouvem ministros falarem em solidariedade internacional. A solidariedade, curiosamente, é sempre cobrada de quem não pediu para ser solidário. E a inflação que veio depois não foi acidente de percurso, foi consequência lógica de expandir moeda para bancar aventuras geopolíticas.
Me diz uma coisa, quem lucrou com isso tudo? Porque o contribuinte britânico claramente não. O industrial que perdeu o mercado russo, o agricultor que pagou mais caro pelo fertilizante, o motorista que viu o diesel dobrar, nenhum deles está na lista dos vencedores. Siga o dinheiro e você encontra empreiteiras de defesa com carteiras de encomendas recorde, bancos de investimento reestruturando dívida soberana com comissão gorda, consultorias de lobby em Londres e Bruxelas cobrando fortuna para abrir porta. O padrão é velho como o mundo, socializa-se o custo da guerra e privatiza-se o lucro da reconstrução. Só os nomes dos beneficiários mudam.
A parte mais humilhante é que, mesmo depois de servir de vassalo fiel, Londres descobre agora que o senhor feudal em Washington mudou de humor. A nova administração americana trata o Reino Unido como sócio descartável, não como irmão de armas. Foi-se a special relationship daqueles discursos solenes em Downing Street, sobrou o constrangimento de ter gastado capital político e econômico para agradar alguém que nem atende mais o telefone. Quando se entrega a soberania de política externa para um aliado, precisa-se aceitar que o aliado pode trocar de prioridade sem pedir licença. E troca.
A lição aqui, se é que alguém em Westminster ainda aprende alguma coisa, é que nação séria negocia com todos, alia-se a poucos e depende de ninguém. A tradição britânica de equilíbrio de poder, aquela diplomacia fria que fez de uma ilha na ponta da Europa o centro de um império, foi trocada por moralismo diplomático que confunde política externa com cruzada ética. Países não têm amigos permanentes, têm interesses permanentes, e quem esquece disso paga caro. A City pagou, a indústria pagou, a família média britânica está pagando no supermercado todo sábado. E o pior é que essa conta ainda tem parcelas vincendas por anos.
No fim das contas, o Reino Unido descobriu do jeito mais caro que guerra por procuração não existe, existe guerra cujo preço você só percebe quando a fatura chega. E a fatura sempre chega, em libras depreciadas, em fábricas fechadas, em prestígio evaporado. Quem quer ser fiador de aventura alheia que não reclame quando a aventura dá errado e o credor vem bater à porta. Império custa caro, e vassalagem custa ainda mais.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.