O governo britânico, sempre disposto a refinar o que já estava ruim, anunciou uma revisão na sua Equality Act que avança da igualdade perante a lei para a igualdade decretada por lei, dois conceitos tão parecidos quanto remédio e veneno. Não basta mais que o Estado trate todos os cidadãos com a mesma régua; agora ele quer entregar resultados emparelhados, como se a vida fosse uma planilha do tesouro e cada inglês uma célula esperando o autopreenchimento. A engenharia social ganhou estatuto de obrigação jurídica, e a fila para fiscalizar se Maria foi promovida na mesma proporção que João já se forma diante de Whitehall.

Quem leu um pouco de história sabe o final desse filme antes mesmo do trailer. A igualdade que importa, aquela que fez a civilização ocidental dar certo, é a igualdade de tratamento diante da regra: contratos cumpridos, propriedade respeitada, tribunais imparciais. Tudo o que vai além disso, qualquer tentativa de aparar resultados desiguais entre seres desiguais por natureza, talento e escolha, exige uma força externa que pesa, mede, recorta e redistribui. E essa força tem nome: coerção estatal. Para que dois cheguem ao mesmo ponto partindo de pontos distintos, o Estado precisa empurrar um para frente e segurar o outro pelos cabelos. Não há terceira via.

Repare no que se vê e, principalmente, no que ninguém quer mostrar. Vê-se o discurso bonito sobre justiça, diversidade, oportunidade, palavras de catálogo de RH transformadas em artigo constitucional. Não se vê a empresa que deixará de contratar pelo medo do processo, o jovem que será preterido por critérios identitários, o investidor que mudará a sede para a Irlanda, o burocrata novo que precisará de salário, sala, carro e aposentadoria pagos por quem produz. A conta dessa generosidade compulsória nunca aparece no projeto de lei; aparece nos contracheques minguados e na economia que estagnou sem que ninguém saiba bem por quê.

E siga o dinheiro, porque o rastro é grosso e mal disfarçado. Toda lei dessa estirpe cria uma indústria nova: consultorias de compliance, departamentos de diversidade, escritórios de advocacia especializados, ONGs vivendo de auditar empresas, acadêmicos publicando pareceres sobre o pareceer. Forma-se uma classe inteira de profissionais cuja existência depende de a desigualdade nunca acabar, porque o dia em que ela acabar é o dia em que ficam desempregados. O incentivo é perpetuar o problema, não resolvê-lo. É a velha lição de que toda burocracia criada para curar uma doença passa a precisar dela para sobreviver.

Há ainda o aspecto mais grave, o moral. Quando o cidadão deixa de ser tratado como indivíduo e passa a ser visto como representante de um grupo, com cotas a cumprir e estatísticas a equilibrar, perde-se aquilo que de mais precioso a tradição liberal construiu nos últimos três séculos: a noção de que cada pessoa responde por si, é julgada por seus atos e merece o que conquista. No lugar disso, instala-se uma sociedade de identidades em concorrência permanente pelo favor do regulador, cada qual disputando o título de mais oprimido para receber o cheque maior. Isso não é justiça; é tribalismo subsidiado.

O resultado prático dessa nova lei britânica será o mesmo de toda tentativa anterior, do experimento soviético ao bem-estarismo escandinavo dos anos setenta: produtividade em queda, emigração de talento, judicialização de tudo, ressentimento crescente entre os grupos que deveriam estar se reconciliando. Quem aposta em decreto para fabricar igualdade descobre, mais cedo ou mais tarde, que decretou apenas pobreza compartilhada. E, no fim, sobra o que sempre sobra quando o Estado tenta brincar de Deus: cidadãos menos livres, mais pobres, e tão desiguais quanto antes, só que agora vigiados.

Com informações do Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.