A manchete fala por si, e fala alto demais. A Wired, periódico que outrora se gabava de profetizar o futuro digital, de entrevistar fundadores de império e de discutir os rumos da civilização conectada, dedica espaço editorial nobre para informar ao leitor que existem códigos promocionais de até cinquenta por cento em maquiagem na rede Ulta durante o mês de maio. Isso não é jornalismo, é encarte de farmácia com tipografia chique. E quem acompanha o lento apodrecimento da imprensa especializada já viu esse filme antes, só que agora em quatro K.
O fenômeno tem nome técnico e disfarce sofisticado. Chama-se conteúdo de afiliação, e funciona assim: o veículo publica uma matéria recheada de links para lojas online, o leitor clica, compra, e a redação embolsa uma comissão. Em si, o modelo não é vilão. O problema começa quando ele coloniza o veículo inteiro, quando a fronteira entre análise editorial e vitrine de shopping evapora, quando o jornalista vira vendedor de loja e ninguém avisa ao leitor. A velha imprensa tinha um muro de ferro entre redação e comercial. Hoje o muro virou cortina de chuveiro, e nem das mais opacas.
Há uma ironia histórica nisso que merece registro. A Wired nasceu nos anos noventa anunciando que a internet libertaria o homem do intermediário, que a informação fluiria direto da fonte ao leitor, que os portões da cultura cairiam. Pois bem, caíram. E o que entrou pelos escombros foi exatamente o tipo de jornalismo de catálogo que o impresso tradicional sempre praticou nos suplementos de domingo, só que com mais analytics e menos pudor. A revolução prometida foi sequestrada pela mesma lógica que pretendia destruir. Velha história, novo figurino.
O leitor atento percebe o desconforto. Quando uma publicação que se vende como autoridade em tecnologia gasta energia editorial discutindo desconto em delineador, ela está sinalizando algo grave sobre seu próprio modelo de negócio. Os anúncios tradicionais minguaram, as big techs estrangularam o tráfego orgânico, os algoritmos do Google e do Facebook decidem quem vive e quem morre na atenção pública, e a saída encontrada foi se tornar braço logístico do varejo. É a imprensa transformada em última milha do comércio eletrônico, e isso tem um preço civilizacional que ninguém cobra na fatura.
Existe ainda a dimensão da chamada beauty tech, que aparece pudicamente no resumo da matéria como se fosse novidade tecnológica relevante. Escovas inteligentes, espelhos com inteligência artificial, scanners de pele que vendem dados do seu rosto para o mesmo ecossistema de vigilância que já sabe sua localização e suas conversas. A beleza foi a porta de entrada mais astuta para a coleta biométrica de massa, e a imprensa que deveria denunciar o esquema prefere recomendar o cupom de desconto. Cada compra é um ponto a mais no dossiê silencioso que está sendo construído sobre cada cidadão.
O que sobra dessa história é uma lição antiga vestida de modernidade. Quando o intelectual vira balconista, quando o crítico vira vendedor, quando o veículo de análise vira panfleto, a sociedade perde algo que não se recupera com cupom de desconto: a capacidade de discernir o joio do trigo no oceano informacional. E enquanto isso, lá fora, decisões reais sobre semicondutores, soberania digital, criptografia, descentralização e o futuro da liberdade individual passam ao largo da cobertura, porque maquiagem com cinquenta por cento de desconto rende mais clique. O Ocidente merece a imprensa que tem.
Com informações da Wired. A análise e opinião são do O Algoz.