Existe uma confusão muito conveniente, cultivada por décadas de academia estatizante e jornalismo de assessoria de imprensa, que transformou o empreendedor num personagem moralmente suspeito: o sujeito que quer ganhar dinheiro às custas dos outros. Essa caricatura serve a um propósito político bastante específico, que é justificar regulação, tributação e controle como se fossem instrumentos de justiça contra um predador. O problema é que ela erra completamente o que o empreendedor, de fato, é.

O ato de empreender começa numa operação que não tem nada de financeiro: começa na imaginação. Alguém percebe, antes de qualquer outro, que existe uma necessidade não atendida, um processo que poderia ser diferente, um produto que as pessoas comprariam se soubessem que era possível existir. Essa percepção não está em nenhum relatório do governo, não aparece em nenhuma pesquisa encomendada por ministério, não pode ser planejada por comitê. Ela existe dispersa, fragmentada, distribuída entre milhões de pessoas que têm necessidades que nem elas mesmas sabem articular. O empreendedor não inventa a necessidade; ele a descobre antes que o mercado a torne óbvia.

É por isso que o lucro, quando vem, não é prêmio pela ganância. É confirmação de que a percepção estava correta. É o sinal que o mercado envia dizendo que sim, você leu a realidade melhor do que todos os outros que olharam para o mesmo lugar e não viram nada. Quando o lucro não vem, é o mesmo mercado dizendo que você errou a leitura, que a necessidade não era o que você pensava, que o recurso deveria ter ido para outro lugar. Esse sistema de sinalização é tão sofisticado, tão capaz de processar informação descentralizada em tempo real, que nenhuma simulação computacional do planeta consegue replicá-lo, quanto menos um burocrata de Brasília com planilha e boa intenção.

A dimensão criativa do empreendedorismo é a que mais incomoda quem gosta de controlar. Porque criatividade genuína é, por definição, imprevisível. Não existe formulário que antecipe a próxima disrupção. Não existe política industrial que selecione os vencedores certos antes de o mercado revelar quem tem razão. Toda vez que um governo decide quais setores merecem subsídio, qual empresa merece proteção tarifária, qual tecnologia merece incentivo fiscal, está essencialmente apostando que o burocrata enxerga melhor do que o empreendedor o que a sociedade vai querer amanhã. A história económica é um cemitério de apostas como essa. O custo não aparece nos balanços do governo porque o custo é justamente o que não foi criado, a empresa que não nasceu, a inovação que não aconteceu porque o capital foi desviado para financiar o favorito de algum ministro.

Há um paradoxo silencioso no coração de toda sociedade que sufoca o empreendedorismo com regulação: ela precisa dos resultados que apenas o empreendedor produz, mas insiste em criar condições que tornam o empreendedor impossível. Quer o emprego sem a empresa, quer a inovação sem o risco, quer a riqueza sem o lucro. É como querer a colheita sem o agricultor, ou a música sem o músico, tratando a criação como algo que acontece sozinho desde que o Estado organize o ambiente corretamente. O empreendedor não é um engrenagem do sistema. É o sujeito que, na ausência de qualquer certeza, decide agir porque enxergou algo que os outros ainda não viram. Tire o risco, tire a recompensa, tire a liberdade de errar, e você não tem um empreendedor mais seguro. Você tem um funcionário público com capital próprio.

A dimensão oculta do empreendedorismo não é mistério filosófico. É simplesmente o que acontece quando uma sociedade decide respeitar o indivíduo o suficiente para deixá-lo agir sobre sua própria percepção da realidade, sem pedir licença, sem justificar para um comitê, sem aguardar que o governo valide o que ele já sabe. Chama-se liberdade. E toda vez que um novo alvará é exigido, toda vez que uma regulação nova torna mais caro errar, toda vez que um imposto adicional reduz a margem entre tentar e desistir, alguma coisa que poderia ter existido simplesmente não vai existir. Você nunca vai saber o que era. Esse é o custo mais alto, e o mais invisível, de um Estado que não confia em quem cria.

Com informações do Instituto Liberal. A análise e opinião são do O Algoz.