Dois governos brigaram meses pela paternidade de uma obra. Depois de fazer as pazes num abraço para as câmeras, sentaram juntos para assinar o que, na linguagem do poder, chamam de "empréstimo". Traduzindo do político para o português: R$ 2,5 bilhões do contribuinte, canalizados por um banco estatal depois que o outro banco estatal, o BNDES, teve a rara lucidez de dizer não, vão financiar uma concessão que já foi leiloada para um grupo privado português. Leia de novo. Uma empresa privada ganhou o contrato para construir e operar o túnel. E o Estado está se endividando para pagar a conta dela.
A lógica é elegante, de certa forma. Você privatiza o lucro, socializa o risco e ainda convoca uma cerimônia oficial com microfone e bandeiras para comemorar. A obra vai existir, vai reduzir o tempo de travessia de Santos ao Guarujá de uma hora para cinco minutos, vai gerar empregos no curto prazo, vai aparecer em propaganda eleitoral de 2026 com a foto de dois políticos que se detestam fingindo ter construído a mesma coisa juntos. O que não vai aparecer na propaganda é a parcela do empréstimo com 23 anos de prazo, nem o juro, nem a garantia do Tesouro que o Ministério da Fazenda precisou emitir para que o Banco do Brasil aceitasse a operação.
Existe um princípio básico de honestidade intelectual que o noticiário de infraestrutura sistematicamente ignora: toda obra pública tem dois preços. O primeiro é o que aparece no anúncio. O segundo é o que aparece na fatura, décadas depois, quando os políticos que assinaram o contrato já estão aposentados com pensão vitalícia e os cidadãos que pagaram impostos a vida inteira estão pagando juros sobre a dívida de uma obra que nunca precisaria ter sido financiada com seu dinheiro se as condições do leilão fossem estruturadas para que o privado assumisse o risco integralmente. Mas não foram. Porque aqui no Brasil, privatizar significa transferir a operação, não o risco. O risco fica com você.
A "disputa de paternidade" entre o governo federal e o estado de São Paulo é o detalhe mais revelador de toda essa história. Dois times políticos adversários, com projetos de poder opostos e eleições em vista, passaram meses brigando sobre quem merece o crédito por gastar o dinheiro alheio. Não brigaram sobre se o modelo era o melhor. Não brigaram sobre por que o BNDES recusou o financiamento e o que isso diz sobre a viabilidade da estrutura. Brigaram sobre quem aparece primeiro na faixa de inauguração. Isso é o que a política virou: uma disputa por crédito sobre decisões de gasto que não custam nada para quem as toma.
O túnel pode ser uma boa obra. Provavelmente é. A ligação Santos-Guarujá tem demanda real, o projeto técnico existe, a empresa contratada tem histórico. Nada disso está em discussão. O que está em discussão é o modelo pelo qual uma democracia adulta decide financiar infraestrutura, e a resposta que o Brasil dá repetidamente é: com dívida, com banco estatal, com garantia do Tesouro e com cerimônia de assinatura. O primeiro túnel submerso do país chegará com pompa, com faixa e com uma fatura de 23 anos que nenhum dos dois governadores vai precisar pagar. Essa conta, como sempre, tem endereço certo. É o seu.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.