A notícia é prosaica e por isso mesmo reveladora. A Unilever, gigante anglo-holandesa que vende desde maionese até desodorante, viu suas vendas crescerem acima do previsto no início do ano, e o motor desse crescimento não foi a Europa estagnada nem os Estados Unidos endividados, foi o consumidor de mercado emergente comprando detergente para lavar roupa e sabonete para tomar banho. Quer dizer, enquanto economistas de Davos discutem em painéis climatizados como "redesenhar o capitalismo global", a senhora em Jacarta está decidindo, com seu próprio dinheiro, que prefere o Omo ao concorrente local. E é essa decisão, multiplicada por bilhões, que move uma das maiores empresas de bens de consumo do planeta.
Olha o que está acontecendo aqui e que ninguém quer enxergar. O mesmo establishment que passa o ano inteiro lamentando a "desigualdade global" e exigindo transferências de renda planejadas por burocracias internacionais é o que se recusa a reconhecer o óbvio: o mercado livre, quando deixado em paz, tira mais gente da pobreza em uma década do que cinquenta anos de programas da ONU. O indiano que hoje compra Dove ontem não tinha sabonete decente. Não foi o Banco Mundial que mudou isso, foi a abertura comercial que ele mesmo quis combater nos anos noventa.
Me diz uma coisa: por que essa história nunca vira manchete? Porque ela desmonta o roteiro. O roteiro exige que o pobre seja vítima esperando salvação estatal, e não agente econômico fazendo escolhas racionais com restrição orçamentária. Quando o consumidor de Lagos decide trocar o sabão artesanal pelo industrial porque rende mais e cheira melhor, ele está executando, sem saber, o cálculo econômico mais sofisticado que existe, aquele que nenhum ministro do planejamento jamais conseguiu replicar com toda a sua planilha. Preço relativo, utilidade marginal, expectativa de renda futura, tudo isso processado intuitivamente em três segundos no corredor do mercadinho.
E siga o dinheiro, porque ele sempre conta a verdade. A Unilever não cresce nesses mercados porque algum governo subsidiou a entrada dela; cresce porque entregou produto que o sujeito quis comprar com o dinheiro que ele suou para ganhar. Não há intermediário moral no meio dessa transação, não há comitê de equidade, não há cota, não há ESG, há um pacote de detergente trocado por algumas notas. É a forma mais antiga e mais honesta de cooperação humana que existe, e é justamente por ser honesta que incomoda tanto quem vive de redistribuir o que os outros produziram.
Há aqui uma lição que o Brasil insiste em não aprender. Enquanto a Índia, com todos os seus defeitos e sua burocracia kafkiana, conseguiu liberar o suficiente da economia para que centenas de milhões saíssem da miséria comprando bens que antes não consumiam, nós continuamos discutindo se a solução é um novo programa social custeado por imposto sobre quem produz. O resultado está no balanço da Unilever: o emergente que abre cresce, o emergente que se fecha em nome da "soberania" estagna. E depois reclama que o povo é pobre.
O detalhe final é o mais delicioso. Toda a engenharia financeira global, todo o intervencionismo monetário das últimas décadas, toda a tentativa de manipular ciclos econômicos via taxa de juros e expansão de crédito, nada disso explica o trimestre da Unilever. O que explica é gente comum querendo cheirar bem e ter a roupa limpa. Há uma humildade civilizatória nesse fato que os doutores da política pública precisariam estudar com atenção, mas não vão estudar, porque admitir isso seria admitir que a maior parte do que eles fazem é desnecessário, quando não nocivo. O consumidor pobre dos mercados emergentes é mais sábio que o conselho do Fundo Monetário, e o sabonete Dove acaba de provar isso outra vez.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.