Vejamos o que está em jogo antes que a propaganda da "governança moderna" engula a discussão. O UNITE HERE, sindicato que representa parte dos funcionários do PENN Entertainment, decidiu que o conselho da companhia precisa abandonar os mandatos escalonados, aquele arranjo em que apenas uma fração dos conselheiros se renova a cada ano. A justificativa oficial é a cartilha de sempre, accountability, alinhamento com o acionista, transparência. A justificativa real é mais prosaica, quem consegue derrubar o conselho inteiro de uma vez tem muito mais alavanca para impor pautas que nada têm a ver com o retorno do capital investido.

Repare na coreografia. Um sindicato que negocia salários e benefícios com a empresa descobre, do nada, vocação para arquiteto de governança corporativa. Não é o pequeno acionista de Topeka que está na frente da câmera, é o aparato sindical que tem interesse direto e mensurável em fragilizar a estabilidade do conselho que negocia do outro lado da mesa. É como pedir ao réu que escolha o juiz, e ainda exigir aplausos pela sofisticação institucional do gesto.

O mandato escalonado não foi inventado por gênios do mal trancados numa sala de Wilmington. Ele existe há mais de um século justamente porque conselho de companhia aberta não pode ser refém da pressão do trimestre, do ativista de plantão, do fundo oportunista que comprou ações na semana passada para desovar na próxima. A renovação parcial protege a empresa de ondas de pânico, golpes hostis e capturas relâmpago. Quem quer derrubar essa cerca antes de entender por que ela foi erguida costuma descobrir, tarde demais, que ela estava ali segurando algo importante.

E aqui aparece o ponto que ninguém quer dizer em voz alta. O capitalismo de compadrio do século XXI não veste mais paletó de banqueiro, veste camiseta de causa. A captura do conselho por grupos de pressão organizados, sindicatos, fundos ESG, ativistas de pauta identitária, é a versão moderna do velho cartório, só que com vocabulário de Stanford. O acionista pulverizado, aquele que comprou cem ações para a aposentadoria, não tem lobby, não tem assessoria de imprensa, não tem reunião com a SEC. Quem tem essas três coisas decide por ele, e depois lhe vende o resultado como vitória da democracia corporativa.

Há ainda o detalhe que a imprensa econômica brasileira costuma engolir sem mastigar. Cada vez que se enfraquece um mecanismo de proteção do conselho em nome da accountability, cresce na mesma proporção o poder de quem já tem voz organizada, e diminui o de quem só tem dinheiro investido. A retórica é igualitária, o efeito é oligárquico. O sindicato não está pedindo voz, ele já tem voz, está pedindo para que sua voz pese mais que a do dono do capital. E faz isso usando o vocabulário inventado para defender exatamente o oposto.

O PENN pode até ter problemas de gestão, ações em queda, decisões questionáveis sobre apostas esportivas e concessões. Nada disso se resolve entregando o leme para quem tem interesse cruzado declarado. A boa governança corporativa não é a que cede mais rápido à pressão mais alta, é a que protege o investidor de longo prazo das modas curtas que toda década inventa um novo nome para si mesma. O resto é teatro, e teatro caro, pago por quem não comprou ingresso.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.