No fim de semana, a Marinha americana fez o que vinha telegrafando há meses, abriu fogo sobre um cargueiro com bandeira iraniana no Golfo de Omã, abordou a embarcação e apreendeu a carga. É a primeira apreensão oficial dentro do bloqueio americano ao Estreito de Ormuz, aquele corredor estreito por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta. A Casa Branca fala em vitória, Teerã fala em ato de pirataria, e os mercados, mais honestos que ambos, apenas ajustam o preço do barril enquanto o consumidor final se prepara, mais uma vez, para pagar a conta de uma briga que não é dele.
Olha, a primeira pergunta que todo jornalista bem comportado evita fazer é a mais importante, a quem interessa essa escalada exatamente neste momento. Trump declara que a negociação de paz está em xeque, as autoridades iranianas sugerem o contrário, e no meio dessa névoa deliberada surgem contratos militares, lobbies de defesa e fundos posicionados em energia que engordam a cada manchete. A guerra, vista de cima, é a política industrial mais eficiente já inventada, o Estado compra, o contribuinte paga, o complexo industrial militar fatura, e ainda sobra bandeira para tremular no discurso patriótico. Siga o dinheiro e a geopolítica fica estranhamente clara.
Existe um detalhe que os entusiastas do bloqueio preferem não mencionar, toda vez que uma potência decide fechar uma rota comercial, ela está, na prática, impondo um imposto mundial. Cada navio desviado, cada seguro marítimo reprecificado, cada litro de diesel mais caro no caminhão que abastece o supermercado, tudo isso é tributo não declarado que o brasileiro, o europeu e o asiático pagam para financiar a política externa americana. Quer dizer, a conta da guerra não aparece no orçamento federal dos Estados Unidos, aparece no bolso do aposentado que abastece o carro em Brasília.
E há a questão moral, que o establishment ocidental tratou de aposentar. Abordar um navio mercante em águas internacionais é ato de guerra pela definição clássica, a mesma definição que serviu de pretexto a incontáveis conflitos no século passado. Quando o ato é praticado pelo inimigo do dia, vira crime de lesa humanidade, quando é praticado pela potência hegemônica, vira operação legítima de segurança marítima. A semântica é a primeira vítima, sempre, e o público treinado por três décadas de jornalismo de pauta engole a contradição sem mastigar.
O ponto mais sombrio, porém, é o precedente. Toda vez que um governo, qualquer governo, se arroga o direito de bloquear um estreito internacional baseado em sanções unilaterais, ele está dizendo ao mundo que o comércio existe enquanto lhe convém. Hoje é o Irã, amanhã é quem desagradar o humor de plantão em Washington. O livre comércio, essa instituição espontânea que tirou mais gente da miséria do que todos os programas sociais somados, vai sendo transformado em ferramenta de política externa, e ninguém parece notar que está aplaudindo a destruição do próprio chão em que pisa.
No fim, o que se viu no Golfo de Omã não foi vitória americana nem derrota iraniana, foi mais um capítulo da velha liturgia em que Estados encenam força enquanto sociedades pagam o preço. Paz não se constrói com canhão abordando cargueiro, e prosperidade não brota de rota comercial trancada a sete chaves. O barulho dos tiros some em duas semanas, o buraco no bolso do trabalhador fica por anos.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.