As negociações duraram vinte e uma horas. Vinte e uma horas de cúpula em Islamabad, com o vice-presidente americano liderando a delegação, iranianos e paquistaneses em volta da mesma mesa, e o resultado foi um comunicado de bloqueio naval lançado numa rede social. Trump anunciou que a Marinha dos Estados Unidos bloqueará qualquer navio tentando entrar ou sair do Estreito de Hormuz, a partir de hoje, com efeito imediato. O Estreito por onde passa aproximadamente um quinto de todo o petróleo que o mundo consome. Vinte por cento. Não é detalhe geopolítico, é civilização industrial.

O Irã, por sua vez, apresentou exigências que qualquer negociador de bom senso saberia de antemão que seriam rejeitadas: controle do Estreito de Hormuz, reparações de guerra, cessar-fogo no Líbano e devolução de ativos congelados no exterior. Ou seja, Teerã entrou na negociação exigindo a vitória completa como pré-condição para conversar sobre como chegar à vitória completa. Isso não é diplomacia. É teatro com mísseis no camarim.

Agora observe o mecanismo. Quando você bloqueia o Estreito de Hormuz, o preço do barril sobe. Quando o preço do barril sobe, sobe tudo: combustível, transporte, manufatura, alimento. O cidadão americano que encheu o tanque semana passada vai encher de novo, pagando mais. O trabalhador brasileiro que compra o pão de cada dia vai encontrar o pão mais caro, porque o navio que trouxe o trigo custou mais para navegar. A conta do bloqueio não vai parar na conta do Aiatolá. Vai parar no bolso de quem aquece a casa, de quem dirige até o trabalho, de quem compra comida no mercado. Quando impérios guerreiam, quem paga são os que não foram convidados para a mesa das negociações. Foi sempre assim.

Siga o dinheiro. Quem se beneficia de petróleo caro? Produtores que não dependem do Estreito: o xisto americano do Texas e da Bacia do Permian, que já competia com dificuldade a preços mais baixos, volta a ser lucrativo. As empresas de defesa contratadas pela Marinha para cada navio que patrulhará o bloqueio. Há sempre uma indústria que cresce quando outra para. Não é teoria da conspiração, é o princípio mais elementar da análise econômica: toda grande decisão geopolítica cria ganhadores e perdedores, e os ganhadores raramente são os que apareceram na foto da negociação fracassada.

O Irã respondeu declarando que qualquer embarcação militar que se aproxime do Estreito viola a trégua de duas semanas que estava em vigor, e que reagirá em conformidade. Temos, portanto, uma trégua que um lado usa para anunciar bloqueio e o outro ameaça romper com fogo. Isso tem nome técnico: não é paz, é pausa. E pausas entre potências que não chegaram a acordo costumam durar exatamente o tempo necessário para reabastecer o arsenal. Os dois séculos anteriores são generosos em exemplos desse roteiro específico, todos com o mesmo desfecho: o conflito retorna, mais caro e mais mortal do que quando foi interrompido.

Vinte e uma horas de negociação para não chegar a lugar nenhum. Dois lados que sentaram à mesa exigindo a capitulação do outro como pré-condição para o diálogo. E agora um bloqueio que vai alterar preços em São Paulo, em Berlim, em Jacarta e em Lagos, nos próximos dias. Os que decidiram não precisarão pagar. Os que pagarão não decidiram. Chame isso pelo nome que quiser. O nome antigo é guerra; o nome moderno é gestão de crise. O resultado é o mesmo.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.