O dólar furou os R$ 4,90 e o gráfico, que é frio e não tem partido, sinaliza exaustão do lado vendedor. Em bom português, quem estava apostando contra a moeda americana ficou sem fôlego, e o que vem depois desse tipo de configuração técnica raramente é uma surpresa agradável para quem ganha em real. O curioso é a cara de paisagem do governo, como se o câmbio fosse fenômeno meteorológico, algo que cai do céu, e não a consequência aritmética de gastar mais do que se arrecada, prometer mais do que se pode entregar e imprimir confiança como quem imprime panfleto de campanha.
Quem acompanha esse tipo de movimento sabe que moeda não desvaloriza por acaso, nem por culpa de especulador estrangeiro, esse vilão de novela que volta toda vez que a conta não fecha. Moeda desvaloriza quando o mercado, esse agregado de milhões de decisões individuais que nenhum ministro consegue domesticar, percebe que o emissor da moeda perdeu a vergonha fiscal. E o Brasil, convenhamos, anda exibindo a falta de vergonha como se fosse virtude, com arcabouço furado, meta de déficit que muda de sentido conforme o vento e um Banco Central pressionado a cortar juros para fazer média com o Planalto.
Siga o dinheiro e a peça encaixa. Cada centavo a mais no dólar é imposto silencioso cobrado de quem compra remédio importado, peça de máquina, fertilizante, combustível. Esse confisco invisível, que não passa pelo Congresso nem aparece na declaração do imposto de renda, financia gastança, financia emenda, financia o tal andar de cima que vive de orçamento público enquanto explica para o andar de baixo que a culpa é do mercado. É o velho truque, embrulhado em papel novo, com fita laranja ou verde dependendo da estação.
O gráfico mostra exaustão vendedora porque os fundamentos parariam um burro de carga. Dívida pública crescendo em ritmo de juros compostos, despesa obrigatória engolindo o que sobra do PIB, reforma administrativa engavetada porque mexer com privilégio dói no eleitorado certo, e um discurso oficial que trata o investidor como inimigo de classe. Ninguém aposta a poupança da família num país em que o ministro da Fazenda fala uma coisa de manhã, o presidente desmente à tarde e o líder do governo no Senado garante que tudo está sob controle no jornal da noite.
O que não se vê nessa história é o emprego que não foi criado, o investimento que foi para o Chile, para o México, para qualquer lugar onde o governo não acorde com vontade nova de mexer no bolso alheio. Vê-se o dólar subindo, mas não se vê a fábrica que adiou a expansão, o jovem que ficou sem a vaga, o aposentado que viu o supermercado encarecer sem aumento na aposentadoria. A janela quebrada do câmbio nunca aquece economia nenhuma, apenas redistribui prejuízo para quem não tem como se proteger.
Resta a pergunta que o noticiário econômico evita fazer, porque a resposta constrange demais. Se o problema fosse externo, por que outras moedas emergentes da região não estão apanhando na mesma proporção? Se o problema fosse o Federal Reserve, por que ele não atingiu o peso chileno do mesmo jeito? A verdade incômoda é que cada país colhe a moeda que planta, e quem planta irresponsabilidade fiscal não colhe estabilidade cambial. O gráfico está apenas escrevendo, em linha vermelha, aquilo que os discursos oficiais tentam apagar com tinta verde e amarela.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.