O vice-presidente dos Estados Unidos está a caminho de Islamabad com uma comitiva para negociar sobre o Irã, e a informação não veio de uma nota diplomática, veio de um post presidencial. Quer dizer, a política externa da maior potência do planeta agora se anuncia como trailer de filme, e ninguém no Congresso parece especialmente incomodado de saber pela timeline o que antes se sabia por sessão fechada. Há algo profundamente revelador nesse formato. Quando o protocolo morre, morre junto a ideia de que decisões de guerra e paz precisam passar por algum filtro institucional antes de virarem fato consumado.
Repare no itinerário. Não é Teerã, é Islamabad. O Paquistão, potência nuclear, vizinho do Irã, cliente histórico de dólares americanos em troca de cooperação militar seletiva, vira mesa de jantar onde se decide o destino de outro povo. É o velho manual do mercantilismo geopolítico, aquele em que o Estado escolhe aliados conforme a conveniência do mês e depois descobre, com surpresa ensaiada, que o aliado de ontem virou problema de amanhã. Alguém ainda se lembra de quem financiou os mujahidin? Quem armou Saddam? Quem chamou os aiatolás de parceiros estratégicos em algum momento da história recente? A memória institucional em Washington tem a duração de um ciclo eleitoral.
Olha, o contribuinte americano paga por essa viagem, pagará pelas consequências dela, e não foi consultado sobre nenhuma das duas coisas. Essa é a beleza do arranjo. O custo é socializado, o benefício é privatizado entre empreiteiras do complexo militar, lobistas de política externa e a casta diplomática que vive de crise permanente. Sem crise, não há orçamento. Sem orçamento, não há carreira. Sem carreira, não há think tank pago para explicar em horário nobre por que a próxima intervenção é diferente das trinta anteriores que deram errado.
E há o detalhe técnico que quase ninguém comenta. Toda vez que os Estados Unidos mobilizam diplomacia coercitiva no Oriente Médio, o preço do petróleo se mexe, o dólar se mexe, o ouro se mexe, e quem tem acesso privilegiado à informação se posiciona antes do resto. O mercado precifica a geopolítica em tempo real, e os mesmos que decidem a geopolítica conhecem quem precifica. A coincidência é sempre notável, a investigação é sempre inconclusiva. Siga o dinheiro e você encontrará o mapa que o noticiário não publica.
Me diz uma coisa, qual é exatamente o interesse nacional americano em determinar o regime político de Teerã? Porque essa pergunta simples, feita em voz alta, não tem resposta que sobreviva a dois minutos de argumentação séria. Tem respostas que envolvem Israel, respostas que envolvem a Arábia Saudita, respostas que envolvem contratos de armamento, respostas que envolvem a manutenção do petrodólar. Nenhuma delas coincide com o interesse concreto do sujeito que trabalha em Ohio e paga imposto para que um avião presidencial decole rumo a uma capital asiática para discutir um país terceiro.
A lição que se recusa a aprender é sempre a mesma. Cada intervenção gera a próxima intervenção, cada aliado conveniente gera o inimigo futuro, cada doutrina anunciada em coletiva vira embaraço em uma década. O que se vê é o comunicado triunfal da viagem; o que não se vê é a fatura que chegará daqui a cinco, dez, vinte anos, paga em sangue alheio e em dinheiro próprio. E o ciclo continua porque o ciclo é o negócio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.