A Veeva Systems entregou números bonitos, a RBC reafirmou outperform, e o mercado bateu palma com aquela solenidade de quem acha que está diante de um triunfo do capitalismo puro. Software de nuvem para farmacêuticas, margens gordas, receita recorrente previsível, base de clientes presa pelo custo de troca. No papel do analista de banco, é a tese perfeita. Só que ninguém na nota da RBC parou para perguntar uma coisa simples e incômoda: por que diabos uma farmacêutica precisa de um sistema tão caro e tão específico só para conversar com médico e registrar visita comercial?
A resposta está escrita em letras miúdas no Sunshine Act americano, na LGPD farmacêutica europeia, nas exigências da FDA sobre rastreabilidade de cada amostra grátis entregue a cada consultório, em cada compliance que um burocrata sonhou às três da manhã para resolver um escândalo de dez anos atrás. A Veeva não vende software, vende sobrevivência regulatória. Cada nova regra que sai do Congresso americano ou da Comissão Europeia é, na prática, um novo cliente forçado e uma nova linha de receita garantida. Quando o jornal diz que a empresa tem fosso competitivo, está dizendo, sem perceber, que o fosso foi cavado com dinheiro do contribuinte por gente que nunca escreveu uma linha de código.
Aqui mora a beleza perversa do arranjo. As big pharmas reclamam da regulação em público, mas adoram em particular, porque cada exigência nova é uma barreira de entrada que protege os incumbentes de qualquer concorrente menor que não tem fôlego para pagar a infraestrutura de compliance. E quem fornece essa infraestrutura cobra pedágio eterno. É o mesmo mecanismo que fez prosperar todo o ecossistema de auditoria depois da Sarbanes-Oxley, todo o cipoal de consultoria depois da GDPR, toda a indústria de KYC depois do Patriot Act. A regra é vendida ao público como proteção, é capturada pelos grandes como vantagem competitiva, e o consumidor final paga a conta no preço do remédio.
O analista da RBC olha para o crescimento de receita e vê eficiência empresarial. Quem olha para o que não aparece no relatório vê outra coisa: vê o pequeno laboratório que não nasce porque não consegue pagar a stack de conformidade, vê o medicamento genérico que demora mais cinco anos para chegar ao mercado porque o processo virou um labirinto de validações eletrônicas, vê o preço do tratamento subindo na bula do paciente americano e do brasileiro que importa princípio ativo cotado em dólar inflado por imposição regulatória. A receita que a Veeva embolsa hoje é o reflexo contábil de um custo difuso espalhado por milhões de pessoas que jamais ouviram o nome da empresa.
E ainda assim a coisa funciona como negócio, e funciona muito bem, porque dentro das regras dadas a empresa executa com competência. Não é caso de gestão ruim nem de produto sem qualidade, ao contrário. O problema é confundir excelência operacional dentro de um mercado distorcido com prova de virtude do livre mercado. Isso não é livre mercado. Isso é capitalismo de cartório, com a particularidade moderna de que o cartório agora roda em servidor na Amazon e cobra assinatura mensal. Quando o BC americano resolver subir juros de verdade ou quando alguma administração com coragem começar a podar exigência burocrática redundante, esse múltiplo gordinho que a RBC adora vira abóbora em um trimestre.
Por enquanto a festa continua, os analistas continuam reafirmando outperform, os fundos continuam comprando, e a tese continua sendo apresentada como triunfo da inovação. Mas inovação que depende de lei nova para existir não é inovação, é arbitragem regulatória vestida de tecnologia. O dia em que Wall Street aprender a separar as duas coisas, metade dos queridinhos de SaaS B2B some do índice. Até lá, vão continuar vendendo fosso como se fosse mérito, e cobrando pelo privilégio de explicar o óbvio que ninguém quer enxergar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.