O dado saiu redondo e os jornais comemoraram, 7,1% de alta nas vendas de carros novos em maio no Reino Unido, com os elétricos puxando o pelotão. A manchete vende a ideia de que os britânicos acordaram apaixonados por bateria de lítio e silêncio motorizado. A realidade é mais prosaica, e mais constrangedora. O cidadão britânico não está escolhendo elétrico porque ama o planeta, está escolhendo porque o governo já decidiu por ele que, em 2030, vender carro novo a gasolina ou diesel será proibido por lei. Quando você sabe que o produto que você queria comprar vai virar contrabando em alguns anos, você não tem preferência, você tem prazo.

Esse é o truque mais antigo do manual intervencionista, e funciona sempre da mesma forma. Primeiro o Estado decreta que uma tecnologia é virtuosa e a outra é pecaminosa. Depois subsidia pesadamente a virtuosa com dinheiro de quem ainda compra a pecaminosa. Em seguida onera a pecaminosa com tributos crescentes, taxas urbanas, zonas de baixa emissão e burocracia de licenciamento. Por fim, marca uma data de execução para a tecnologia condenada e celebra, com cara de surpresa, que as vendas da tecnologia escolhida cresceram. É como envenenar o cachorro do vizinho e depois comemorar que o seu engordou.

Siga o dinheiro e a fantasia desaba. Cada libra de incentivo ao elétrico saiu do bolso de alguém, do contribuinte que paga imposto, do motorista de combustão que paga pedágio e congestionamento extras, do consumidor que paga conta de luz mais cara porque a rede precisou ser reforçada para sustentar a transição. As montadoras que se alinharam ao roteiro receberam crédito barato, garantias estatais e proteção regulatória contra concorrentes que ousariam apostar em outra coisa. Os fornecedores de bateria, em sua maioria chineses, agradecem o cheque europeu. O consumidor britânico financia, sem saber, a indústria pesada de Xangai e o lobby verde de Bruxelas, e ainda recebe o adesivo de cidadão consciente para colar no vidro.

E há o que ninguém quer mostrar no gráfico, o que ficou para trás. A oficina mecânica de bairro que vivia de motor a combustão e que não tem capital para se converter em centro de diagnóstico de software automotivo. O posto de gasolina familiar que perde fluxo a cada ano. O empregado da cadeia de peças tradicionais que vai ser dispensado em silêncio enquanto o ministro do meio ambiente faz selfie ao lado de um carregador. A prosperidade que se vê na concessionária de elétricos é real, a destruição que não se vê no resto da cadeia também é. Trocar uma pela outra por decreto não é progresso, é contabilidade criativa em escala nacional.

A pergunta honesta seria outra. Se o carro elétrico é mesmo superior em qualquer dimensão racional, preço, durabilidade, autonomia, conveniência, por que precisa de proibição da concorrência para vencer? Produto bom não precisa de lei que mate o rival, vende sozinho. Quando o Estado precisa empurrar com a mão pesada, é porque o mercado, deixado em paz, daria outra resposta. E o mercado, no fundo, é só a soma das escolhas livres de milhões de pessoas que sabem o que querem melhor do que qualquer comitê em Westminster. Cada vez que um burocrata decide o que você vai dirigir em 2030, ele está dizendo, com todas as letras, que confia mais no próprio palpite do que na sua vida.

No fim das contas, o número alegre de maio não mede liberdade de escolha, mede a eficácia de uma engenharia social. Os britânicos estão comprando o que sobrou na prateleira depois que o governo decidiu quais prateleiras existem. Isso não é demanda, é obediência com cheirinho de carro novo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.