A Coles, segunda maior rede de supermercados da Austrália, divulgou crescimento robusto nas vendas do terceiro trimestre, com destaque para o desempenho dos supermercados físicos e uma aceleração notável no canal digital. Números bonitos, ações reagindo, analistas satisfeitos. Mas a pergunta que interessa ao leitor brasileiro não é quanto a Coles vendeu, é por que uma rede australiana consegue crescer entregando comida mais barata enquanto o supermercado da esquina aqui parece ter virado boutique de luxo onde uma cesta básica custa um salário mínimo regional.
A resposta incomoda quem governa, então quase ninguém conta. A Austrália tem inflação controlada porque o banco central de lá não trata a impressora como brinquedo de criança birrenta. O país abriu o varejo à concorrência estrangeira, derrubou barreiras logísticas, simplificou regulação trabalhista no setor de serviços e, milagre dos milagres, deixou o preço fazer o trabalho que o preço sempre fez quando ninguém atrapalha: sinalizar escassez, premiar eficiência, punir desperdício. O resultado é Coles brigando com Woolworths, Aldi entrando para apertar as duas, e o consumidor agradecendo no caixa.
No Brasil, o roteiro é o oposto e ninguém se constrange. Carga tributária sobre alimento que faria corar um agiota medieval, regulação sanitária usada como reserva de mercado para os grandes, frete encarecido por combustível tributado três vezes, energia elétrica financiando subsídio cruzado para meia dúzia de setores politicamente queridos, e ainda assim a culpa do preço alto é sempre do supermercadista ganancioso ou do produtor explorador. Quer dizer, todo mundo é culpado menos quem desenhou o sistema que tornou comida cara um traço estrutural da economia.
Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. Cada real que o brasileiro paga a mais por quilo de carne, por litro de leite, por pacote de arroz, está financiando uma engrenagem que distribui privilégios para indústrias específicas, sindicatos específicos, federações específicas, partidos específicos. O imposto embutido no alimento não some no ar, vai para algum bolso, e esse bolso tem nome, sobrenome e CNPJ. O consumidor é o pagador permanente de uma festa para a qual nunca foi convidado.
O e-commerce da Coles cresceu porque a Austrália permitiu que crescesse. Logística desonerada, última milha competitiva, dados fluindo, plataformas digitais sem precisar pedir licença para sete agências reguladoras antes de entregar uma alface. Aqui, o varejo digital de alimentos engatinha porque cada inovação esbarra num cipoal de normas que parece desenhado por alguém com ódio pessoal de quem tenta empreender. E quando finalmente decola, vem um deputado iluminado propor lei para "proteger o pequeno comerciante", que na prática protege o status quo e condena o consumidor a continuar pagando caro.
O caso da Coles não é exótico, é apenas o que acontece quando se respeita a aritmética básica de que liberdade econômica produz abundância e intervenção produz escassez. O brasileiro não come pior porque é brasileiro, come pior porque vive sob um arranjo institucional que transformou o ato de alimentar a família em ato de heroísmo fiscal. Enquanto não se entender que o preço alto da comida no Brasil é política pública disfarçada de fatalidade, a próxima manchete sobre supermercado estrangeiro lucrando vai continuar sendo lida como notícia de outro planeta.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.