A Trisul anunciou que as vendas líquidas do primeiro trimestre de 2026 subiram 34,4%, com vendas brutas de R$ 433,5 milhões, crescimento de 27,9% sobre o mesmo período de 2025. Esse é o tipo de notícia que os analistas de Faria Lima leem de relance e os colunistas ignoram, porque não cabe no roteiro oficial. O roteiro oficial diz que a construção civil brasileira depende da bondade do Planalto, da generosidade da Caixa e dos cheques carimbados de programa habitacional. Quando uma incorporadora de médio porte cresce um terço em vendas vendendo para a classe média e média-alta, sem depender do balcão do Tesouro, o roteiro racha.
Olha, é preciso entender o que está acontecendo debaixo desse número. A Trisul opera majoritariamente em São Paulo, num segmento que o governo adora chamar de "não prioritário" porque não rende voto de base fisiológica. Ou seja, são pessoas comprando apartamento com poupança, financiamento privado e crédito imobiliário funcionando como crédito imobiliário deveria funcionar, e não como instrumento de redistribuição disfarçada. Quando você remove parcialmente a muleta estatal de um segmento, descobre que o segmento anda. Quando você coloca a muleta, descobre que o paciente aprendeu a mancar para receber auxílio.
Me diz uma coisa, se a construção civil brasileira realmente dependesse da intervenção federal para sobreviver, como uma empresa que não está no carro-chefe dos programas habitacionais cresceu quase 35% num ambiente de Selic acima de 14%? A resposta incomoda porque contraria três décadas de discurso. O mercado, quando deixado em paz, encontra demanda genuína, preço de equilíbrio e compradores reais. O que o intervencionismo produz é inflação de ativos, inadimplência concentrada e distorção de oferta. A Trisul cresce porque vende algo que alguém quer, pelo preço que alguém está disposto a pagar, com o dinheiro que alguém ganhou honestamente. Isso deveria ser trivial. No Brasil, virou anomalia estatística.
E aqui entra a parte que ninguém conta. Cada ponto percentual de expansão dessa empresa significa emprego real para pedreiro, engenheiro, corretor, arquiteto, vendedor de material de construção, fornecedor de aço, cimento, vidro, elétrica. Multiplique por dezenas de incorporadoras no mesmo segmento e você tem uma cadeia produtiva inteira que funciona apesar do governo, não por causa dele. O Tesouro não gerou esse emprego. O BNDES não financiou essa venda. A agência reguladora não autorizou esse crescimento. Aconteceu porque milhões de decisões individuais, dispersas, não planejadas, convergiram para um resultado que nenhum comitê ministerial conseguiria planejar em mil reuniões.
A lição, que custa caro não aprender, é que a prosperidade não nasce em Brasília. Nasce em canteiros de obra, em escritórios de venda, em reuniões de condomínio onde gente da vida real toma decisões sobre o dinheiro da vida real. O papel do Estado nessa história, quando honesto, é cobrar imposto razoável, garantir o cumprimento de contrato e sair do caminho. Quando desonesto, é criar programa, criar subsídio, criar agência, criar regulação, e depois se declarar indispensável para o setor que ele próprio mutilou. A Trisul não precisou de salvador da pátria para vender 34% a mais. Precisou que deixassem a empresa em paz. Anota essa regra, vale para construção civil, vale para supermercado, vale para aço, vale para tudo. O que floresce, floresce sozinho. O que exige subsídio, exige porque foi previamente quebrado.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.