A Verizon anunciou a segunda rodada de cortes no ano, despachando centenas de funcionários enquanto a diretoria fala em "eficiência operacional", "realinhamento estratégico" e demais sinônimos corporativos para a frase honesta que ninguém tem coragem de dizer: contratamos gente demais, na hora errada, com dinheiro que não era nosso, e agora a conta venceu. Quem acompanha o setor de telecom sabe que isso não é acidente de percurso nem capricho de CEO. É o desenrolar lógico de uma década inteira em que crédito barato, juros próximos de zero e fartura monetária convenceram empresas inteiras de que poderiam crescer estrutura, contratar quadros, expandir times de apoio e abrir frentes paralelas como se a torneira jamais fechasse.
Pois bem, a torneira fechou. E o que parecia investimento estratégico revela-se gordura acumulada na fase eufórica do ciclo. A Verizon não está demitindo porque é maldosa; está demitindo porque, durante anos, foi incentivada por um sistema monetário a se comportar como se recursos fossem infinitos. Quando o crédito é artificialmente abundante, todo executivo medíocre vira visionário, todo projeto duvidoso vira aposta de longo prazo, todo organograma incha. Quando o custo do dinheiro volta para algo parecido com o real, a fantasia evapora e sobra a planilha. E na planilha, gente custa caro.
Veja a ironia que ninguém comenta. A mesma autoridade monetária que produziu a bolha de contratações via juros zero é agora celebrada como heroína por "controlar a inflação" subindo juros, enquanto trabalhadores de carne e osso pagam o pato dos dois lados da gangorra. Foram empregados na euforia financiada pelo Banco Central, são demitidos no aperto financiado pelo Banco Central, e no meio do caminho ainda viram a inflação corroer o salário que receberam. Três golpes na mesma vítima, com a mesma luva, do mesmo punho. E o discurso oficial trata cada fase como se fosse fenômeno natural, como chuva ou maré.
Há também o lado que a imprensa de negócios prefere ignorar. Telecom americano é setor capturado, regulado até a medula, vivendo sob arranjo no qual gigantes incumbentes barram concorrentes via licença de espectro, exigências regulatórias e um exército de lobistas em Washington. Esse arranjo permite que companhias como a Verizon engordem em paz quando o vento é favorável, porque sabem que ninguém pequeno vai aparecer para roubar mercado. Quando o vento muda, o ajuste cai inteiro sobre o trabalhador da ponta, jamais sobre o privilégio regulatório que protege a estrutura no topo. Privatizam-se os ganhos, socializam-se as demissões, e o esquema segue intacto para a próxima rodada.
Olha, ninguém aqui está chorando pela Verizon, que sobrevive a isso e a muito mais. A questão é o que se vê e o que não se vê. Vê-se a manchete fria sobre centenas de demitidos. Não se vê o engenheiro que não foi contratado pela startup que nunca nasceu porque o capital foi sugado para sustentar o império inflado da incumbente. Não se vê o concorrente que não apareceu porque a barreira regulatória custa mais do que o serviço em si. Não se vê o consumidor pagando mensalidade premium por uma rede que avança a passo de tartaruga porque a competição foi neutralizada na canetada. As vítimas visíveis estão hoje no LinkedIn atualizando o currículo. As invisíveis nunca chegarão a saber que foram vítimas.
O recado, para quem quiser ouvir, é antigo e desconfortável. Empresa não cresce de verdade quando o dinheiro está barato; ela apenas parece crescer. O crescimento real exige poupança real, capital real, demanda real, e isso não se fabrica em reunião de comitê monetário. Toda vez que se tenta atalhar essa verdade com expansão de crédito, o ajuste vem depois, mais doloroso, mais concentrado e sempre, sempre na conta de quem não participou da festa. A Verizon está apenas seguindo o roteiro. Os próximos capítulos, com outros nomes na manchete, já estão escritos.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.