A Verizon reportou o primeiro crescimento líquido de assinantes em um primeiro trimestre desde 2013, e a primeira reação do colunista de banco é elogiar a "estratégia de marketing" da empresa, a "nova jornada do cliente", a "transformação digital" e outras expressões vazias que servem para preencher relatório e justificar bônus. Olha, a verdade é mais simples e mais incômoda. Doze anos de estagnação em uma das maiores operadoras do planeta, no país mais rico do planeta, em um setor que deveria estar explodindo de inovação, não é resultado de "desafios competitivos". É sintoma de uma indústria sufocada por décadas de regulação acumulada, de captura regulatória bipartidária e de um modelo em que o consumidor americano paga algumas das tarifas de telefonia mais caras do mundo desenvolvido para sustentar um oligopólio benzido pela FCC.
Quer dizer, o que efetivamente mudou? A Verizon cortou planos confusos, simplificou ofertas, parou de empurrar combos que ninguém entendia e voltou a competir em preço com T-Mobile depois de anos fingindo que era marca premium imune à concorrência. Tradução em português claro: voltou a se comportar como empresa, e não como concessionária de serviço público disfarçada. O mercado puniu a arrogância por uma década inteira, e só agora, com investidores ativistas no cangote e o conselho temendo perder mais terreno, o gigante azul lembrou que cliente não é refém, é eleitor diário com a carteira na mão.
E aqui é onde o leitor atento precisa seguir o dinheiro. Telecom americana é o exemplo de manual do que acontece quando o Estado escolhe vencedores. Espectro de radiofrequência leiloado a preço de banquete para quem já era grande, barreiras regulatórias gigantescas para entrantes, subsídios federais para "expansão rural" que viram bônus de executivo, leis estaduais que literalmente proíbem cidades de oferecerem internet própria. Tudo isso engordou Verizon, AT&T e companhia por décadas, e ao mesmo tempo as deixou flácidas, sem reflexo competitivo, dependentes do lobista em Washington em vez do engenheiro em Nova Jersey. Agora que a T-Mobile, vinda de fora do clube, resolveu jogar o jogo de verdade, os outros estão tendo que aprender a correr de novo. O choque foi terapêutico.
Tem ainda o detalhe que ninguém comenta nos cadernos de economia educados. Esse "crescimento" se dá em ambiente de inflação acumulada que corroeu o poder de compra do americano médio, com famílias trocando planos caros por planos pré-pagos, migrando para marcas brancas operadas pelas mesmas redes, e descobrindo que o "premium" da Verizon era basicamente uma taxa de marca cobrada de quem não conferia o boleto. O que parece vitória comercial é, em parte, capitulação ao bolso apertado de uma classe média que já não aguenta pagar caro por nada. A inflação não é fenômeno climático, é política deliberada, e ela reorganiza mercados inteiros enquanto os ministros falam em "ajuste técnico".
A lição que o investidor brasileiro precisa tirar disso é dupla. Primeiro: empresa grande demais para falir é, quase sempre, empresa grande demais para inovar, e o tempo cobra a fatura mesmo quando o regulador protege. Segundo: toda vez que ouvir um executivo de telecom, de banco, de energia ou de plano de saúde reclamando de "concorrência predatória", traduza mentalmente para "estão atrapalhando o nosso arranjo confortável com Brasília". O concorrente predatório, na boca do incumbente, é geralmente o sujeito que oferece o mesmo serviço por metade do preço. E é exatamente esse sujeito que o consumidor precisa, e que o lobby existe para sufocar.
No fim, a Verizon voltar a crescer depois de doze anos não é milagre de gestão, é lembrete de uma verdade que economista de banco central tem horror a admitir: mercado funciona quando deixam funcionar, e o pior inimigo do consumidor raramente é a empresa, é o arranjo invisível que protege a empresa da consequência de ser ruim. Tirou-se um pouco do colchão regulatório, apertou-se um pouco a concorrência real, e o gigante acordou. Imagina o que aconteceria se tirassem o colchão inteiro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.